Devemos andar sempre bêbados .
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
... Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
__São horas de te embriagares!
Para não seres como os escravos martirizados do tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.
(Comentário necessário: ao se traduzir qualquer texto, penso eu, deve ser permitido uma certa flexibilização, pois a tradução literal pode não agregar o sentimento do autor, na língua de origem! Achei importante dizer isso)
Por favor, embriague-se apenas um pouquinho...
Pretendo com este modesto blog compartilhar com os amigos as minhas algumas criações e estimular a leitura de grandes obras de arte, comentários sobre museus e viagens, restaurantes e uma série de coisas boas. Garanto que você vai gostar, mais ou menos, mas vai !
domingo, 4 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
TRÊS COISAS, de Fernando Pessoa
TRÊS COISAS
Fernando Pessoa:
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!"
("Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1960, pág. 98)
Um bom e querido amigo perguntou-me, ontem, porque eu publicava sempre esse poema! Minha resposta a ele, e a quem talvez se pergunte o mesmo, foi:... é que ando um pouco esquecido e esse poema é importante para que eu faça uma correção de rumos a tempo e hora!
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Fernando Pessoa:
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!"
("Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1960, pág. 98)
Um bom e querido amigo perguntou-me, ontem, porque eu publicava sempre esse poema! Minha resposta a ele, e a quem talvez se pergunte o mesmo, foi:... é que ando um pouco esquecido e esse poema é importante para que eu faça uma correção de rumos a tempo e hora!
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quinta-feira, 1 de março de 2012
SONETO, de Luís de Camões
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.
Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
(O soneto ora publicado foi extraído do livro "Inês de Castro e O velho do restelo", de autoria de Sylmara Beletti e Frederico Barbosa, Landy Editora - São Paulo, 2001, pág. 39.)
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
O Amor Acaba, de Paulo Mendes Campos
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unha...s; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; PARA RECOMEÇAR EM TODOS OS LUGARES E A QUALQUER MINUTO O AMOR ACABA..
(“Revista da ABL”, nº 210, vol.III, pág.11, de nov. 1973)
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
DÉJEUNER DU MATIN (Café da manhã) , de Jacques Prévert
Pôs café
na xícara
Pôs leite
na xícara com café
Pôs açúcar
no café com leite
Com a colherzinha
mexeu
Bebeu o café com leite
E pôs a xícara no pires
Sem me falar
acendeu
um cigarro
Fez círculos
com a fumaça
Pôs as cinzas
no cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.
......................................
DÉJEUNER DU MATIN
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec le petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a resposé la tasse
Sans me parler
Il a alumé
Une cigarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis des cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
E j'ai pleuré.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
EVOCAÇÃO DA ROSA, de Abdias do Nascimento
Era uma vez uma rosa
que não era vegetal
nem rosa mineral
carecia até da cor de rosa
era uma gata formosa
negra amarela e brancosa
irrequietamente caprichosa
vestida de suave pêlo multicor
Bichana terrivelmente amorosa
dos laços dos seus encantos
nenhum gato jamais se livrou
pelos telhados miava dengosa
suspirava a noite inteira
seduzindo namoradeira
toda a gataria ao
luar da lua alcoviteira
Certo dia Rosa pariu
uma ninhada de gatinhos
de várias cores engraçadinhos
os mais lindos eram os pretinhos
mamavam de patinhas entrelaçadas
ronronando de olhos cerrados
boquinhas rosadas coladas
às rosadas tetas de Rosa
Num desses momentos
um gatão assassino
pêlo sujo debotado
miando feio saltou felino
matando gatinho por todo lado
A mãe valente e briosa
socorri de porrete na mão
ajudei a defesa de Rosa
esbordoando estridente
perseguindo o ladrão
ele fugiu espavorido
um gatinho levando nos dentes
outros sangravam na agonia
Rosa fuzilava os olhos dementes
miando plangente a dor que lhe doía
noites a fio seu gemer se ouvia
ó doce e carinhosa Rosa
era de cortar o coração
ver-te enlouquecida
recusar enfurecida
aquela felina traição
ir definhando entristecida
até a completa inanição
Rosa cheirosa e macia
que ao morrer no
meu jardim plantei
sob a terra desapareceu
aos cuidados da minha
pobre primavera de
uma gata demente e morta
a rosa-gata enternecida
em rosa-flor floresceu
foram ambas a
única rosa que
a infância me deu
Buffalo, 30 de janeiro de 1981
sábado, 25 de fevereiro de 2012
HÁ MUITO TEMPO...de MIGUEL TORGA
Há muito tempo já não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
... Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
(“Revista de Coimbra”, nº. 98, vol. 34, pág. 75)
.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
O Sentimento do Sublime
Vinicius de Moraes
Místico
O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?
Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
Rio de Janeiro, 1933
Vinicius de Moraes
Místico
O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?
Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
Rio de Janeiro, 1933
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Saudade, de Rita Lacerda Watts, boa amiga
Saudade é dor que dói sentida
Dor que corrói
É a viagem do tempo sabida
Mas não protegida
Pelo vai e vem.
... ... Saudade é a lembrança da sorte
Inimiga da morte
Porque vive várias vezes
Mesmo que sofrida
A alegria de alguém.
Saudade é fé e esperança
É pura como criança
Vem correndo e te alcança
Quando menos você espera
De pureza dura
e força singela
É um laço invisível
Que liga as almas amigas
Numa trama querida
Aqui e no além.
(Estou tendo o privilégio de publicar esse poema pela primeira vez e aqui no FB. Agradeço-lhe muito,Ritoca)
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Dor que corrói
É a viagem do tempo sabida
Mas não protegida
Pelo vai e vem.
... ... Saudade é a lembrança da sorte
Inimiga da morte
Porque vive várias vezes
Mesmo que sofrida
A alegria de alguém.
Saudade é fé e esperança
É pura como criança
Vem correndo e te alcança
Quando menos você espera
De pureza dura
e força singela
É um laço invisível
Que liga as almas amigas
Numa trama querida
Aqui e no além.
(Estou tendo o privilégio de publicar esse poema pela primeira vez e aqui no FB. Agradeço-lhe muito,Ritoca)
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Sou Eu, de Fernando Pessoa, como Alvaro de Campos
SIM, SOU EU, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
... Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões da vida.
Sou eu mesmo, que remédio!...
(in “Ficções do Interlúdio”, “Obra Poética”, Ed. José Aguilar, 1960, pág. 349/350)
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Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
... Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões da vida.
Sou eu mesmo, que remédio!...
(in “Ficções do Interlúdio”, “Obra Poética”, Ed. José Aguilar, 1960, pág. 349/350)
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domingo, 29 de janeiro de 2012
Razões Conjugadas, de Adalgiza Nery
Da tristeza, tempo nascido do sonho,
Formaram-se o vento, as águas mansas,
A escuridão úmida sob o sol,
A neve amortalhando as distâncias,
O pranto confuso,
O silêncio compacto, tão pesado.
No caminho já pisado por mil pés
Há relva à procura da luz imaculada.
Tão relva quanto tão estrela
Ambas em tristeza confirmadas
Como o pranto tão confuso, tão chorado,
O silêncio tão compacto, tão pesado.
Ações do corpo conjugadas
Às canções que permanecem ocultas
À voz alegre dos rios,
Ao vôo das asas alumbradas.
Cárceres de sonhos e temores,
Desejos de morte sobre mortes,
No pranto tão confuso, tão chorado,
No silêncio tão compacto, tão pesado.
(©Adalgisa Nery,in"Erosão", 1974)
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Formaram-se o vento, as águas mansas,
A escuridão úmida sob o sol,
A neve amortalhando as distâncias,
O pranto confuso,
O silêncio compacto, tão pesado.
No caminho já pisado por mil pés
Há relva à procura da luz imaculada.
Tão relva quanto tão estrela
Ambas em tristeza confirmadas
Como o pranto tão confuso, tão chorado,
O silêncio tão compacto, tão pesado.
Ações do corpo conjugadas
Às canções que permanecem ocultas
À voz alegre dos rios,
Ao vôo das asas alumbradas.
Cárceres de sonhos e temores,
Desejos de morte sobre mortes,
No pranto tão confuso, tão chorado,
No silêncio tão compacto, tão pesado.
(©Adalgisa Nery,in"Erosão", 1974)
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O Olhar Para Trás, de Vinicius de Moraes
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Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez… mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
Alguém gritaria longe: - "Quantas rosas nos deu a primavera!..."
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o vôo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! - a sua voz é fresca como o orvalho...
Beijam-me a face - irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
Voltaria o silêncio - seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
E que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que chegaste a mim cheio de chagas?
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
Fora, um riso de criança - longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.
Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...
("Antologia Poética", Ed. Sabiá, 1979, pág. 96)
Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez… mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
Alguém gritaria longe: - "Quantas rosas nos deu a primavera!..."
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o vôo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! - a sua voz é fresca como o orvalho...
Beijam-me a face - irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
Voltaria o silêncio - seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
E que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que chegaste a mim cheio de chagas?
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
Fora, um riso de criança - longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.
Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...
("Antologia Poética", Ed. Sabiá, 1979, pág. 96)
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Quem Sou Eu, de Nelson Mandela
Nosso medo mais profundo
não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo
é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas,
o que mais nos apavora.
Nós nos perguntamos:
Quem sou eu para ser Brilhante,
Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
Você é filho do Universo.
Se fazer pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher,
para que os outros não se sintam inseguros
quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar
a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas
permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo,
nossa presença, automaticamente, libera os outros.
.
não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo
é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas,
o que mais nos apavora.
Nós nos perguntamos:
Quem sou eu para ser Brilhante,
Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
Você é filho do Universo.
Se fazer pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher,
para que os outros não se sintam inseguros
quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar
a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas
permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo,
nossa presença, automaticamente, libera os outros.
.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Vocação Para a Felicidade, de Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco
Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.
Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.
A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias,
em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos.
Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.
Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros,
encantos e desencantos que o amor me diz.
Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular ?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento.
Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?
Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!
É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por ai.
(in "Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1964, pág. 346)
Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.
Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.
A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias,
em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos.
Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.
Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros,
encantos e desencantos que o amor me diz.
Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular ?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento.
Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?
Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!
É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por ai.
(in "Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1964, pág. 346)
sábado, 26 de novembro de 2011
O Desespero da Piedade, de Vinicius de Moraes
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Romeu e Julieta, de Shakespeare (Traduzido por Olavo Bilac)
(Ato III, cena V.)
JULIETA:
Por que partir tão cedo? inda vem longe o dia...
Ouves? é o rouxinol. Não é da cotovia
Esta encantada voz. Repara, meu amor:
Quem canta é o rouxinol na romãzeira em flor.
Toda a noite essa voz, que te feriu o ouvido,
Povoa a solidão como um longo gemido.
Abracemo-nos! fica! inda vem longe o sol!
Não canta a cotovia: é a voz do rouxinol!
ROMEU:
É a voz da cotovia anunciando a aurora!
Vês? há um leve tremor pelo horizonte afora.
Das nuvens do levante abre-se o argênteo véu,
E apagam-se de todo as limpadas do céu.
Já sobre o cimo azul das serras nebulosas,
Hesitante, a manhã coroada de rosas
Agita os leves pés, e fica a palpitar
Sobre as asas de luz, como quem quer voar.
Olha! mais um momento, um rápido momento,
E o dia sorrirá por todo o firmamento!
Adeus! devo partir! partir para viver...
Ou ficar a teus pés para a teus pés morrer!
JULIETA:
Não é o dia! O espaço inda se estende, cheio
Da noite caridosa. Exala do ígneo seio
O sol, piedoso e bom, este vivo dano
Sé para te guiar por entre a cerração.
Fica um minuto mais! por que partir tão cedo?
ROMEU:
Mandas? não partirei! esperarei sem medo
Que a morte, com a manhã, venha encontrar-me aqui!
Sucumbirei feliz, sucumbindo por ti!
Mandas? não partirei! queres? direi contigo
Que é mentira o que vejo e mentira o que digo!
Sim! tens razão! não é da cotovia a voz
Este encantado som que erra em torno de nós!
É um reflexo da lua a claridade estranha
Que aponta no horizonte acima da montanha!
Fico para te ver, fico para te ouvir,
Fico para te amar, morro por não partir!
Mandas? não partirei! cumpra-se a minha sorte!
Julieta assim o quis: bem-vinda seja a morte!
Meu amor, meu amor! olha-me assim! assim!
JULIETA:
Não! é o dia! é a manhã! Parte! foge de mim!
Parte! apressa-te! foge! A cotovia canta
E do nascente em fogo o dia se levanta
Ah! reconheço enfim estas notas fatais!
O dia! ... a luz do sol cresce de mais em mais
Sobre a noite nupcial do amor e da loucura!
ROMEU:
Cresce... E cresce com ela a nossa desventura!
("Obra Completa", "Versões", Ed. Aguilar, 1960, pág. 43)
JULIETA:
Por que partir tão cedo? inda vem longe o dia...
Ouves? é o rouxinol. Não é da cotovia
Esta encantada voz. Repara, meu amor:
Quem canta é o rouxinol na romãzeira em flor.
Toda a noite essa voz, que te feriu o ouvido,
Povoa a solidão como um longo gemido.
Abracemo-nos! fica! inda vem longe o sol!
Não canta a cotovia: é a voz do rouxinol!
ROMEU:
É a voz da cotovia anunciando a aurora!
Vês? há um leve tremor pelo horizonte afora.
Das nuvens do levante abre-se o argênteo véu,
E apagam-se de todo as limpadas do céu.
Já sobre o cimo azul das serras nebulosas,
Hesitante, a manhã coroada de rosas
Agita os leves pés, e fica a palpitar
Sobre as asas de luz, como quem quer voar.
Olha! mais um momento, um rápido momento,
E o dia sorrirá por todo o firmamento!
Adeus! devo partir! partir para viver...
Ou ficar a teus pés para a teus pés morrer!
JULIETA:
Não é o dia! O espaço inda se estende, cheio
Da noite caridosa. Exala do ígneo seio
O sol, piedoso e bom, este vivo dano
Sé para te guiar por entre a cerração.
Fica um minuto mais! por que partir tão cedo?
ROMEU:
Mandas? não partirei! esperarei sem medo
Que a morte, com a manhã, venha encontrar-me aqui!
Sucumbirei feliz, sucumbindo por ti!
Mandas? não partirei! queres? direi contigo
Que é mentira o que vejo e mentira o que digo!
Sim! tens razão! não é da cotovia a voz
Este encantado som que erra em torno de nós!
É um reflexo da lua a claridade estranha
Que aponta no horizonte acima da montanha!
Fico para te ver, fico para te ouvir,
Fico para te amar, morro por não partir!
Mandas? não partirei! cumpra-se a minha sorte!
Julieta assim o quis: bem-vinda seja a morte!
Meu amor, meu amor! olha-me assim! assim!
JULIETA:
Não! é o dia! é a manhã! Parte! foge de mim!
Parte! apressa-te! foge! A cotovia canta
E do nascente em fogo o dia se levanta
Ah! reconheço enfim estas notas fatais!
O dia! ... a luz do sol cresce de mais em mais
Sobre a noite nupcial do amor e da loucura!
ROMEU:
Cresce... E cresce com ela a nossa desventura!
("Obra Completa", "Versões", Ed. Aguilar, 1960, pág. 43)
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Há momentos, de Clarice Lispector.
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
sábado, 11 de junho de 2011
Quando o Amor Vira Palavras, de Silvia Plath
O ainda infeito se torna o inescrito
Pela atividade de outros
E a pena imóvel de nós mesmos
Se levanta, em prontidão adiada,
Sobre o papel insuave do tempo ─
Temas da escrivaninha agora,
Todos aqueles projetos implícitos
Resgatados dos papéis por nossas mentes,
Aquela literatura perdida que só a morte lê.
E esperamos obras um do outro
Que excedam não tanto a beleza
Ou a fama entre nossos suspiros físicos
Quanto a quietude, memorável
Não além do pensamento, que se move, desestranhamente,
Sem as reluzentes espadas da história.
E eu lhe direi, "O que é preciso agora
É um poema sobre o amor, com o qual esquecêssemos o beijo
E ser para os lábios mais amor que beijo".
Ou, fracassando seu coração tagarela,
Eu mesmo escreverei este beijo falado,
Imprimindo-o na boca do tempo
Talvez finalmente demais, mas devagar,
Já que a execução agora é prudente
Com a soneca reflexiva que a língua tira
Entre o pensado e o dito.
Assim, enfim, instruir a nós mesmos
No nada que agora estamos fazendo,
Esses dias inaturais de inatividade,
Ao contar a coisa num tom natural.
Devemos ser corajosos:
Ousando o futuro sedentário
Sem outra esperança de paixão além das palavras,
E encontrando o que sentimos no que pensamos,
E conhecendo o sentimento diminuído
Para a idade mais sábia de uma ação um dia tola.
Como se dissesse, onde um dia eu poderia ter levantado,
Curvada para beijar como um vento cego procurando
Uma boca firme para descobrir a própria,
Agora me sento socialmente na cadeira do amor,
Feliz por ter você ou outra pessoa encarando
A distância trazida pelo inclinar de minha cabeça;
E então, se me permitem, ir para minha outra sala
E escrever sobre um assunto que tocasse todos os assuntos
Com a pressão compacta de sala
Lotando o mundo entre meus cotovelos;
Mais adiante, para a cama, e suavemente,
Deixar que a noite conclua, meus lábios ainda abertos,
Que um beijo aconteceu, ou outra coisa ter sonhado.
A noite, um dia, foi a cronista
Sussurrando boatos lascivos para a manhã.
Mas agora a história do anoitecer
É o sorriso mesmo da ceia e do depois,
Não é um infante nos braços da enfermeira Romance,
É a hora tardia na qual eu e você
Podíamos ter escrito ou lido talvez até mesmo isto.
Às vezes vamos nos declarar falsamente,
Jovens num sentido anterior da estória
Impossível diante da hora abreviada das palavras.
Mas não importa o quanto nos demoramos contra a exatidão,
Ampliando a página de tanto errar
Das necessidades sobrevividas do acaso,
Não podemos nos enganar por muito tempo,
Agora livres daqueles gestos
Que fizeram do mundo um conto elástico,
De semelhança nenhuma com nosso propósito.
Pois nós quisemos dizer, e dizemos, só um
Consenso de experiência,
Apesar da diferença em nossos nomes
E de parecer termos nascido
Cada um com um enredo cambiante e perda
De sentimento (embora nossa terra seja isso)
Em casa em tamanho lugar temporal.
Agora só nos resta casar nossas palavras
Com um sim coletivo de reconhecimento ─
Não tínhamos, até agora, ouvido a nós mesmos falar
Por causa do vigor e furor tagarelas
Dos amores animados demais enquanto algazarram ao caírem,
Dos nossos lábios impensados como letras excessivas.
É difícil lembrar
Que estamos fazendo nada,
A fim de nada, desejando fazer nada.
De uma nuvem espúria de desapontamento
Devemos extrair a gota sincera de alívio
Que corresponda à lágrima em nossos pensamentos
Sem motivo para escorrê-Ia.
Somos felizes.
Estes engajamentos da mente, Improdutivos do impulso do beijo,
Tocam o coração como o amor essencial,
Livre da curiosidade teatral
Que um dia dirigiu nossos desejos
Até um fim de vergonha e floreio berrantes,
De modo que atuávamos estes papéis sombrios
Abandonados entre susto e pompa.
Agora há pouco para se ver
E menos ainda a se esconder.
O ato de escrever 'Eu amo você'
Contém o amor, senão completamente,
Pelo menos com ternura o bastante
Para fazer do resto uma sombra ao nosso redor Imaculada penumbra
Não substanciada pelas alucinações do amor.
É mais verdadeiro ao coração falar, agora sabemos,
Do que segredar o alarme atrevido,
Corado com as surpresas da timidez,
Que se avulta entre a coragem de amar
E o costume de tatear por resultados.
Os resultados vieram primeiro, nossa linguagem
Traz suas cicatrizes: não podemos
Falar do amor se versos ceceiam
Com acentos memoráveis demais,
Cativando o que nós, em vez de amor, amorfizemos.
Primeiro vem o presságio, depois o que queremos dizer.
Não quisemos dizer o arfar ou a quentura;
Isto não é nenhum esfriar, abafando
O grito bandeirado que um dia o amor acenou diante de nós.
Aquilo foi uma dúvida, e uma persuasão ─
Por meio do crer, com a arte da dúvida,
Daquilo que, em nossa teimosia, tínhamos menos certeza.
Há menos a dizer sobre o depois
Mas mais a se dizer.
Não sobrou, verdade, palavra alguma para o beijo.
Podemos falar sobre nós mesmos;
E os personagens fugazes que fomos
Nervosos com o tempo no palco excitável
Se rendem a seus autores duradouros
De modo que é possível estudar, ainda vivos,
Qual amor ou elocução pode nos preservar
Daquela outra literatura
Que rapidamente exercemos para perpetuar
O palavrório mortal da aparência.
Não pense que sou severa
Por banir o beijo, antigo,
Ou como nossas mãos e faces pudessem se roçar
Quando nossos pensamentos sentem um amor e um alvoroço
Menos que escrevível e uma graça
De prontidão não totalmente verbal.
Estar amando é erguer a pena
E usá-Ia também, e o avanço
Da decisão calada para o deleite
De nos encontrar não meramente fluentes
Mas na ligadura das palavras que se abraçam
É por meio da metáfora do amor,
E ainda motivo de um beijo entre nós,
Embora a gente não se beije ─ ou com tanta intenção,
Que o gosto se perde no gosto do pensamento.
Não pensemos, por ser tão protestado
À linguagem última e condição,
Que não amamos mais.
Nós só deixamos de vir a ser ─ e somos.
Poucas as perplexidades e os intervalos
De um 'tímido acaso que nos são permitidos:
Mesmo que quiséssemos ser afoitos de novo, não poderíamos,
Nem tomar a trilha indistinta e demorada
E tropeçar até a razão como um cavalo
Rumina medo diante da longa virada de volta,
E nós o cavaleiro triste, inexperiente em montaria,
Treinado à maneira fugitiva.
Mas um flerte ainda governa nossos corações
Em nome da consciência.
Erguemos os olhos
Do manuscrito diante de nós
Para encontrar um presente assustado piscando ao passado
Com a visão desfigurada e um semblante reprovador,
Apontando ao olhar do tempo em direção à memória
Como se tivéssemos apagado as relíquias
De modo a ter algo sobre o qual escrever.
E paramos, pela duração da consciência,
Discernindo na névoa petulante
A face maltratada de alguém que conhecemos,
Faminta pra ser salva de nosso rancor.
E amamos: separamos os traços
Do desvanecimento e compomos com eles
Uma semelhança com aquele que não esperou,
E deveria ter esperado, aprendido a esperar.
Erguemos os olhos para saudar a nós mesmos
Convictos de que nenhum de nós está ausente
Ou deveria estar, da escritura doméstica de palavras
Que se lêem bem-vindas a tudo o que somos.
E então de novo às palavras
Depois ─ era? ─ um beijo ou exclamação
Entre face e face, súbito demais para ser registrado.
Sendo nosso amor agora um vão de mente
Em cuja ponte e não no corpo singular
Cavalga as águas da desunião
Com sorriso rabugento e valor gemente,
Podemos fazer do amor um milagre
Como a ligação de idéia e idéia e outra idéia,
O que é feito não quando as atravessamos
Mas quando sabemos que as palavras são o que queremos dizer.
Nos abstemos de nos mexer, parecendo-nos agora
Mais como nós mesmos para manter a vigilância escrita
E deixar que o alcance do amor nos cerque
Com a carinhosa acusação de sermos poetas.
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)
Pela atividade de outros
E a pena imóvel de nós mesmos
Se levanta, em prontidão adiada,
Sobre o papel insuave do tempo ─
Temas da escrivaninha agora,
Todos aqueles projetos implícitos
Resgatados dos papéis por nossas mentes,
Aquela literatura perdida que só a morte lê.
E esperamos obras um do outro
Que excedam não tanto a beleza
Ou a fama entre nossos suspiros físicos
Quanto a quietude, memorável
Não além do pensamento, que se move, desestranhamente,
Sem as reluzentes espadas da história.
E eu lhe direi, "O que é preciso agora
É um poema sobre o amor, com o qual esquecêssemos o beijo
E ser para os lábios mais amor que beijo".
Ou, fracassando seu coração tagarela,
Eu mesmo escreverei este beijo falado,
Imprimindo-o na boca do tempo
Talvez finalmente demais, mas devagar,
Já que a execução agora é prudente
Com a soneca reflexiva que a língua tira
Entre o pensado e o dito.
Assim, enfim, instruir a nós mesmos
No nada que agora estamos fazendo,
Esses dias inaturais de inatividade,
Ao contar a coisa num tom natural.
Devemos ser corajosos:
Ousando o futuro sedentário
Sem outra esperança de paixão além das palavras,
E encontrando o que sentimos no que pensamos,
E conhecendo o sentimento diminuído
Para a idade mais sábia de uma ação um dia tola.
Como se dissesse, onde um dia eu poderia ter levantado,
Curvada para beijar como um vento cego procurando
Uma boca firme para descobrir a própria,
Agora me sento socialmente na cadeira do amor,
Feliz por ter você ou outra pessoa encarando
A distância trazida pelo inclinar de minha cabeça;
E então, se me permitem, ir para minha outra sala
E escrever sobre um assunto que tocasse todos os assuntos
Com a pressão compacta de sala
Lotando o mundo entre meus cotovelos;
Mais adiante, para a cama, e suavemente,
Deixar que a noite conclua, meus lábios ainda abertos,
Que um beijo aconteceu, ou outra coisa ter sonhado.
A noite, um dia, foi a cronista
Sussurrando boatos lascivos para a manhã.
Mas agora a história do anoitecer
É o sorriso mesmo da ceia e do depois,
Não é um infante nos braços da enfermeira Romance,
É a hora tardia na qual eu e você
Podíamos ter escrito ou lido talvez até mesmo isto.
Às vezes vamos nos declarar falsamente,
Jovens num sentido anterior da estória
Impossível diante da hora abreviada das palavras.
Mas não importa o quanto nos demoramos contra a exatidão,
Ampliando a página de tanto errar
Das necessidades sobrevividas do acaso,
Não podemos nos enganar por muito tempo,
Agora livres daqueles gestos
Que fizeram do mundo um conto elástico,
De semelhança nenhuma com nosso propósito.
Pois nós quisemos dizer, e dizemos, só um
Consenso de experiência,
Apesar da diferença em nossos nomes
E de parecer termos nascido
Cada um com um enredo cambiante e perda
De sentimento (embora nossa terra seja isso)
Em casa em tamanho lugar temporal.
Agora só nos resta casar nossas palavras
Com um sim coletivo de reconhecimento ─
Não tínhamos, até agora, ouvido a nós mesmos falar
Por causa do vigor e furor tagarelas
Dos amores animados demais enquanto algazarram ao caírem,
Dos nossos lábios impensados como letras excessivas.
É difícil lembrar
Que estamos fazendo nada,
A fim de nada, desejando fazer nada.
De uma nuvem espúria de desapontamento
Devemos extrair a gota sincera de alívio
Que corresponda à lágrima em nossos pensamentos
Sem motivo para escorrê-Ia.
Somos felizes.
Estes engajamentos da mente, Improdutivos do impulso do beijo,
Tocam o coração como o amor essencial,
Livre da curiosidade teatral
Que um dia dirigiu nossos desejos
Até um fim de vergonha e floreio berrantes,
De modo que atuávamos estes papéis sombrios
Abandonados entre susto e pompa.
Agora há pouco para se ver
E menos ainda a se esconder.
O ato de escrever 'Eu amo você'
Contém o amor, senão completamente,
Pelo menos com ternura o bastante
Para fazer do resto uma sombra ao nosso redor Imaculada penumbra
Não substanciada pelas alucinações do amor.
É mais verdadeiro ao coração falar, agora sabemos,
Do que segredar o alarme atrevido,
Corado com as surpresas da timidez,
Que se avulta entre a coragem de amar
E o costume de tatear por resultados.
Os resultados vieram primeiro, nossa linguagem
Traz suas cicatrizes: não podemos
Falar do amor se versos ceceiam
Com acentos memoráveis demais,
Cativando o que nós, em vez de amor, amorfizemos.
Primeiro vem o presságio, depois o que queremos dizer.
Não quisemos dizer o arfar ou a quentura;
Isto não é nenhum esfriar, abafando
O grito bandeirado que um dia o amor acenou diante de nós.
Aquilo foi uma dúvida, e uma persuasão ─
Por meio do crer, com a arte da dúvida,
Daquilo que, em nossa teimosia, tínhamos menos certeza.
Há menos a dizer sobre o depois
Mas mais a se dizer.
Não sobrou, verdade, palavra alguma para o beijo.
Podemos falar sobre nós mesmos;
E os personagens fugazes que fomos
Nervosos com o tempo no palco excitável
Se rendem a seus autores duradouros
De modo que é possível estudar, ainda vivos,
Qual amor ou elocução pode nos preservar
Daquela outra literatura
Que rapidamente exercemos para perpetuar
O palavrório mortal da aparência.
Não pense que sou severa
Por banir o beijo, antigo,
Ou como nossas mãos e faces pudessem se roçar
Quando nossos pensamentos sentem um amor e um alvoroço
Menos que escrevível e uma graça
De prontidão não totalmente verbal.
Estar amando é erguer a pena
E usá-Ia também, e o avanço
Da decisão calada para o deleite
De nos encontrar não meramente fluentes
Mas na ligadura das palavras que se abraçam
É por meio da metáfora do amor,
E ainda motivo de um beijo entre nós,
Embora a gente não se beije ─ ou com tanta intenção,
Que o gosto se perde no gosto do pensamento.
Não pensemos, por ser tão protestado
À linguagem última e condição,
Que não amamos mais.
Nós só deixamos de vir a ser ─ e somos.
Poucas as perplexidades e os intervalos
De um 'tímido acaso que nos são permitidos:
Mesmo que quiséssemos ser afoitos de novo, não poderíamos,
Nem tomar a trilha indistinta e demorada
E tropeçar até a razão como um cavalo
Rumina medo diante da longa virada de volta,
E nós o cavaleiro triste, inexperiente em montaria,
Treinado à maneira fugitiva.
Mas um flerte ainda governa nossos corações
Em nome da consciência.
Erguemos os olhos
Do manuscrito diante de nós
Para encontrar um presente assustado piscando ao passado
Com a visão desfigurada e um semblante reprovador,
Apontando ao olhar do tempo em direção à memória
Como se tivéssemos apagado as relíquias
De modo a ter algo sobre o qual escrever.
E paramos, pela duração da consciência,
Discernindo na névoa petulante
A face maltratada de alguém que conhecemos,
Faminta pra ser salva de nosso rancor.
E amamos: separamos os traços
Do desvanecimento e compomos com eles
Uma semelhança com aquele que não esperou,
E deveria ter esperado, aprendido a esperar.
Erguemos os olhos para saudar a nós mesmos
Convictos de que nenhum de nós está ausente
Ou deveria estar, da escritura doméstica de palavras
Que se lêem bem-vindas a tudo o que somos.
E então de novo às palavras
Depois ─ era? ─ um beijo ou exclamação
Entre face e face, súbito demais para ser registrado.
Sendo nosso amor agora um vão de mente
Em cuja ponte e não no corpo singular
Cavalga as águas da desunião
Com sorriso rabugento e valor gemente,
Podemos fazer do amor um milagre
Como a ligação de idéia e idéia e outra idéia,
O que é feito não quando as atravessamos
Mas quando sabemos que as palavras são o que queremos dizer.
Nos abstemos de nos mexer, parecendo-nos agora
Mais como nós mesmos para manter a vigilância escrita
E deixar que o alcance do amor nos cerque
Com a carinhosa acusação de sermos poetas.
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Solidão é fundamental !
Solidão é fundamental !
Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia.. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Use a solidão e fique em ótima companhia
.
Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia.. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Use a solidão e fique em ótima companhia
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Poesia nos textos simples, postado por Affonso Romano de Sant'ana
Como desentranhar poesia de textos aparentemente simples?
Levo para o curso COMO LER POESIA, o poema de Eduardo Alves da Costa " No caminho com Maiakovsky". O poema é longo, mas a sua parte mais conhecida, é assim:
Na primeira noite/ eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite,/ já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada. / Até que um dia,/o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz,/ e, conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos nada.
Alguém pode duvidar se este texto é poesia, pois não tem rimas. Os versos, no entanto, têm ritmo embora não tão regulares como num soneto. Mas onde a poesia?
Uma das característica da poesia é a repetição . E esse texto, tem várias, num crescendo. Mas além deste dado formal, há algo quanto ao conteúdo: o texto é uma parábola. Como os mitos, as parábolas fazem alusão, tratam indiretamente um assunto, tangem, como a poesia, o imponderável. E essa parábola, apresentada ritmicamente, deixa ao leitor o preenchimento de significados. De que se trata? De uma referência a regimes totalitários? À violência cotidiana? À invasão da privacidade na sociedade atual?
Vejamos o texto mais de perto.
-Quem são esses "eles" que surgem logo no princípio? A primeira frase é muito informativa e dramática: " Na primeira noite eles se aproximam". Há uma oposição entre "eles" e "nós" ( lugar onde está o leitor). Constrói-se uma narrativa temporal ( sintética): pois à "primeira" sucede agora a "segunda" noite de tensão. E houve um avanço dos agressores, pois eles " já não se escondem". portanto, aumentou a ameaça.
Há um crescendo trágico: evidencia-se a impotência do "eu" diante "deles". A agressividade vinda de fora é maior: "não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão". Como a dizer que na primeira noite nós não vimos claramente a ameaça, mas na segunda, vemos, somos testemunhas, "in presencia" . Não apenas "pisam", "matam" ( houve uma progressão nesses verbos), ultrapassam o jardim onde está a nossa guarda: "o cão". E como as barreiras vão caindo, aquela frase que era anteriormente separada por um ponto "E não dizemos nada", na segunda repetição é separada por uma vírgula, como se esse "e não dizemos nada" virasse um hábito, uma consequência. A violência fica sintaticamente mais evidente. Da tensão do primeiro para o segundo dia, chega-se a "um dia" não determinado, mas pateticamente esperado.
Aí, a expressão "o mais frágil deles" - aumenta a humilhação do confronto. Não é apenas o desconhecido ou violento, que mata, senão "o mais frágil deles". Não apenas o mais frágil, mas alguém que "entra sozinho", e mais- "em nossa casa". Ou seja, ele veio do exterior, esmagou a flor do jardim, matou o cão que nos protegia e está dentro da nossa casa, na nossa outrora indevassável intimidade.
Reféns e imobilizados, estamos. O mais frágil avança: "rouba-nos a luz". Vejam, ele não "apaga", não " desliga", ele "rouba" e isto é mais violento, pois não "tira" apenas, mas se "apodera" de algo que é nosso e vital- a "luz", que pode ter vários significados: vida, consciência, capacidade de localizar-se, de ser e estar.
E como se isto não bastasse, aquele que veio pelo jardim pisando flores, matando o cão, apagando a luz, agora invade nosso corpo e num gesto de progressiva violência "arranca-nos a voz da garganta". A expressão é bastante visual, é física com a presença da "garganta" violada e a sensação de pânico e dor.
E o poema termina inclementemente trágico: "E já não podemos nada".
Dito isto o leitor é abandonado em sua impotente solidão.
(Agradeço a Ronaldo Derly Rodrigues)
.
Levo para o curso COMO LER POESIA, o poema de Eduardo Alves da Costa " No caminho com Maiakovsky". O poema é longo, mas a sua parte mais conhecida, é assim:
Na primeira noite/ eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite,/ já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada. / Até que um dia,/o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz,/ e, conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos nada.
Alguém pode duvidar se este texto é poesia, pois não tem rimas. Os versos, no entanto, têm ritmo embora não tão regulares como num soneto. Mas onde a poesia?
Uma das característica da poesia é a repetição . E esse texto, tem várias, num crescendo. Mas além deste dado formal, há algo quanto ao conteúdo: o texto é uma parábola. Como os mitos, as parábolas fazem alusão, tratam indiretamente um assunto, tangem, como a poesia, o imponderável. E essa parábola, apresentada ritmicamente, deixa ao leitor o preenchimento de significados. De que se trata? De uma referência a regimes totalitários? À violência cotidiana? À invasão da privacidade na sociedade atual?
Vejamos o texto mais de perto.
-Quem são esses "eles" que surgem logo no princípio? A primeira frase é muito informativa e dramática: " Na primeira noite eles se aproximam". Há uma oposição entre "eles" e "nós" ( lugar onde está o leitor). Constrói-se uma narrativa temporal ( sintética): pois à "primeira" sucede agora a "segunda" noite de tensão. E houve um avanço dos agressores, pois eles " já não se escondem". portanto, aumentou a ameaça.
Há um crescendo trágico: evidencia-se a impotência do "eu" diante "deles". A agressividade vinda de fora é maior: "não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão". Como a dizer que na primeira noite nós não vimos claramente a ameaça, mas na segunda, vemos, somos testemunhas, "in presencia" . Não apenas "pisam", "matam" ( houve uma progressão nesses verbos), ultrapassam o jardim onde está a nossa guarda: "o cão". E como as barreiras vão caindo, aquela frase que era anteriormente separada por um ponto "E não dizemos nada", na segunda repetição é separada por uma vírgula, como se esse "e não dizemos nada" virasse um hábito, uma consequência. A violência fica sintaticamente mais evidente. Da tensão do primeiro para o segundo dia, chega-se a "um dia" não determinado, mas pateticamente esperado.
Aí, a expressão "o mais frágil deles" - aumenta a humilhação do confronto. Não é apenas o desconhecido ou violento, que mata, senão "o mais frágil deles". Não apenas o mais frágil, mas alguém que "entra sozinho", e mais- "em nossa casa". Ou seja, ele veio do exterior, esmagou a flor do jardim, matou o cão que nos protegia e está dentro da nossa casa, na nossa outrora indevassável intimidade.
Reféns e imobilizados, estamos. O mais frágil avança: "rouba-nos a luz". Vejam, ele não "apaga", não " desliga", ele "rouba" e isto é mais violento, pois não "tira" apenas, mas se "apodera" de algo que é nosso e vital- a "luz", que pode ter vários significados: vida, consciência, capacidade de localizar-se, de ser e estar.
E como se isto não bastasse, aquele que veio pelo jardim pisando flores, matando o cão, apagando a luz, agora invade nosso corpo e num gesto de progressiva violência "arranca-nos a voz da garganta". A expressão é bastante visual, é física com a presença da "garganta" violada e a sensação de pânico e dor.
E o poema termina inclementemente trágico: "E já não podemos nada".
Dito isto o leitor é abandonado em sua impotente solidão.
(Agradeço a Ronaldo Derly Rodrigues)
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Poema da Amiga, de Mário de Andrade
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
.
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
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sexta-feira, 25 de março de 2011
O Tempo, de Mário Quintana
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
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CRIANÇA, de Silvia Plath
O olho claro é a coisa mais bonita em você.
Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,
Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino
Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas
Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.
(Tradução de Rodrigo G. Lopes e Maurício A. Mendonça)
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Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,
Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino
Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas
Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.
(Tradução de Rodrigo G. Lopes e Maurício A. Mendonça)
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Reinvenção da arte, de Bertold Brecht
A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.
Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.
Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.
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E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.
Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.
Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.
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sábado, 12 de fevereiro de 2011
Estátua Falsa, de Mário Sá Carneiro
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...
(in "Dispersão", Paris, 5 de Maio de 1913)
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...
(in "Dispersão", Paris, 5 de Maio de 1913)
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Rifa-se um coração (quase novo), de Clarice Lispector
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.
(in http://www.luso-poemas.net )
.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.
(in http://www.luso-poemas.net )
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Paciência, autor desconhecido.
Ah! Se vendessem paciência nas farmácias
e supermercados..
Muita gente iria gastar
boa parte do salário nessa mercadoria
tão rara hoje em dia.
Por muito pouco
a madame que parece uma "lady",
solta palavrões e berros que
lembram as antigas
"trabalhadoras do cais",
e o bem comportado executivo,
"o cavalheiro", se transforma numa
"besta selvagem" no trânsito
que ele mesmo ajuda tumultuar.
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam,
a voz da vizinha é um tormento,
o jeito do chefe é demais para sua cabeça,
a esposa virou uma chata,
o marido uma "mala sem alça",
aquela velha amiga uma "alça sem mala",
o emprego uma tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar,
até o passeio viraram novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando
que o banco dele pela Internet estava
demorando a dar o saldo,
eu me lembrei da fila dos bancos.
Pobre de nós,
meninos e meninas sem paciência,
sem tempo para a vida,
sem tempo para a espiritualidade,
a paciência está em falta no mercado,
e pelo jeito,
a paciência sintética dos calmantes
está cada vez mais em alta.
Pergunte para alguém
que você saiba que é "ansioso demais",
onde ele quer chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas,
com o vago de sua resposta.
E você? Onde quer chegar?
Está correndo tanto para que?
Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire...Acalme-se...
O mundo está apenas na sua primeira volta
e com certeza,
no final do dia vai completar
o seu giro ao redor do sol,
com ou sem a sua paciência.
"NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL...
SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA...".
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e supermercados..
Muita gente iria gastar
boa parte do salário nessa mercadoria
tão rara hoje em dia.
Por muito pouco
a madame que parece uma "lady",
solta palavrões e berros que
lembram as antigas
"trabalhadoras do cais",
e o bem comportado executivo,
"o cavalheiro", se transforma numa
"besta selvagem" no trânsito
que ele mesmo ajuda tumultuar.
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam,
a voz da vizinha é um tormento,
o jeito do chefe é demais para sua cabeça,
a esposa virou uma chata,
o marido uma "mala sem alça",
aquela velha amiga uma "alça sem mala",
o emprego uma tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar,
até o passeio viraram novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando
que o banco dele pela Internet estava
demorando a dar o saldo,
eu me lembrei da fila dos bancos.
Pobre de nós,
meninos e meninas sem paciência,
sem tempo para a vida,
sem tempo para a espiritualidade,
a paciência está em falta no mercado,
e pelo jeito,
a paciência sintética dos calmantes
está cada vez mais em alta.
Pergunte para alguém
que você saiba que é "ansioso demais",
onde ele quer chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas,
com o vago de sua resposta.
E você? Onde quer chegar?
Está correndo tanto para que?
Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire...Acalme-se...
O mundo está apenas na sua primeira volta
e com certeza,
no final do dia vai completar
o seu giro ao redor do sol,
com ou sem a sua paciência.
"NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL...
SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA...".
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro,minha cara tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro,minha cara tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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sábado, 18 de dezembro de 2010
Sossega Coração, de Fernando Pessoa
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
(Fernando Pessoa, 2-8-1933)
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Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
(Fernando Pessoa, 2-8-1933)
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domingo, 12 de dezembro de 2010
Reinvidicação da Arte, de Bertold Brecht
A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.
Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.
Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.
.
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.
Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.
Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.
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sábado, 4 de dezembro de 2010
A suposta existência, de Carlos Drummond de Andrade
Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?
O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?
Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?
Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?
Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?
Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.
A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.
(in "A paixão medida". ''Poesia completa", Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 2002, do blog do poeta Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com)
(Enviado pelo meu amigo Ronaldo Derly Rodrigues)
.
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?
O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?
Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?
Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?
Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?
Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.
A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.
(in "A paixão medida". ''Poesia completa", Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 2002, do blog do poeta Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com)
(Enviado pelo meu amigo Ronaldo Derly Rodrigues)
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Subindo a Montanha, da minha amiga Beatriz Lobo
Quando quero te encontrar, paro tudo e me escondo em um lugar seguro, onde posso soltar meu corpo sem me preocupar. Deixo com cuidado, o meu corpo ao pé da montanha é o primeiro passo que preciso dar para te ver, preciso me desprender da matéria, de todo o peso que me impede de subir. À medida que escalo a montanha, vou deixando os pensamentos que me afligem, uso cada um para servir de apoio na minha escalada, finco-os na montanha e os uso como degraus, uso minhas tristezas, minha ansiedade, desesperança, inimigos e assim vou ficando mais leve, também deixo as pessoas que me pedem oração, minhas alegrias, meus entes queridos, meus sonhos e desejos.
Quando me sinto vazia, entrego meu olhar, meus pensamentos, meus sentidos, mergulho no silêncio ......... chego ao topo da montanha, desejosa em te ver e sentir seu amor. Vejo-O sentado em seu trono a me esperar, seus olhos se alegram ao me ver, estende sua mão, seguro firme. Seu olhar é puro, seu sorriso é infantil, sento-me aos seus pés e abro meu coração, quero levar em mim tudo o que diz e o que vejo. Tenho sede de Ti e não me canso de vir aqui, cada vez mais me vejo dependente do seu amor.
Na hora de voltar, preciso confessar que às vezes não quero voltar, mas sei que é preciso seguir e sei que ao final do caminho estará a me esperar. No alto da montanha é onde me abasteço para continuar a caminhada. Desço em um salto, visto meu corpo e vejo que nada ao meu redor mudou, às vezes as situações estão piores que quando parti, mas sinto que meu coração está fortalecido para viver o que tenho de viver. Não sei o que vai acontecer, só sei que me revisto de coragem e dou o primeiro passo e então tudo vai se transformando, portas vão se abrindo e vou caminhando confiante, seguindo a sua voz que palpita em meu coração.
E sei que sempre que precisar, estará aí no topo da montanha a me esperar.
Obrigada, Senhor!
.
Quando me sinto vazia, entrego meu olhar, meus pensamentos, meus sentidos, mergulho no silêncio ......... chego ao topo da montanha, desejosa em te ver e sentir seu amor. Vejo-O sentado em seu trono a me esperar, seus olhos se alegram ao me ver, estende sua mão, seguro firme. Seu olhar é puro, seu sorriso é infantil, sento-me aos seus pés e abro meu coração, quero levar em mim tudo o que diz e o que vejo. Tenho sede de Ti e não me canso de vir aqui, cada vez mais me vejo dependente do seu amor.
Na hora de voltar, preciso confessar que às vezes não quero voltar, mas sei que é preciso seguir e sei que ao final do caminho estará a me esperar. No alto da montanha é onde me abasteço para continuar a caminhada. Desço em um salto, visto meu corpo e vejo que nada ao meu redor mudou, às vezes as situações estão piores que quando parti, mas sinto que meu coração está fortalecido para viver o que tenho de viver. Não sei o que vai acontecer, só sei que me revisto de coragem e dou o primeiro passo e então tudo vai se transformando, portas vão se abrindo e vou caminhando confiante, seguindo a sua voz que palpita em meu coração.
E sei que sempre que precisar, estará aí no topo da montanha a me esperar.
Obrigada, Senhor!
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Homem Peru Tonto, de Beatriz Lobo
Em todos os períodos de férias escolares, desde os meus 5 anos, íamos para o sul da Bahia, onde meu pai tinha uma fazenda. Lá, ficávamos numa casinha simples feita de barro com janelinhas de madeira. Na frente, algumas flores, banquinhos de madeira, uma árvore linda. Lembro-me de ficar sentada ali em um daqueles banquinhos algumas horas, às vezes até me deitava, admirando o vento balançando a copa da árvore, a paisagem que era linda e à noite as estrelas que inundavam o nosso céu. Ali naqueles banquinhos também ouvíamos os causos de quem lá vivia. Na parte de trás da casa, ficava a cozinha com fogão a lenha, uma janela que se abria para o quintal e o pomar. A casa não tinha forro, podíamos ver as telhas. O banheiro ficava fora da casa. A casinha tinha dois quartos, ficávamos todos num quarto, meu pai, minha mãe e os cinco filhos, todos juntinhos ali. No outro quarto ficava seu Expedito e dona Nega, que lá moravam. Seu Expedito usava chapeuzinho de couro e carregava na cintura um cinto engraçado, onde pendurava, um facão, um canivete e outros apetrechos. Dona Nega, hoje causaria inveja em muita mulher por ai, era magrinha e toda musculosa e estava sempre de vestido, era muito ativa e conversadeira.
Em um desses verões, a camionete mal estacionou, pulamos logo da carroceria, corremos todos para o quintal, direto ao pé de amora, quem era mais alto levava vantagem, eu e a Raquel estávamos sempre em desvantagem. O quintal de terra batida, abrigava vários moradores, alguns cães, gatos, galinhas, galos, pintinhos, porco..... Logo vimos um morador diferente, era um peru. Glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu.
Dona Nega veio logo avisar, cuidado com esse bicho ele não é bom da cabeça. Fiquei assustada, bonito ele não era. Era quase do meu tamanho, não gostei nada disso! Passei a andar somente ao lado de quem era maior que eu, assim me sentia mais segura mas estava sempre vigiando o peru.
Sentava na porta da cozinha que ficava virada para o quintal eu observava o movimento dos moradores daquele lugar. O galo era o primeiro a levantar e acordava a todos, todos os dias. Sempre atento punha ordem no terreiro. As galinhas eram as mais simpáticas, algumas pareciam sorrir pra mim, as que eram mães eram muito metidas, andavam empinadas com uma penca de pintinhos ao redor, não deixavam que a gente chegasse perto. De vez em quando dona Nega pegava um pintinho pra gente passar a mão e a galinha mãe ficava lá resmungando e brigando, mas logo devolvíamos. Os cães eram curiosos, queriam nos conhecer, nos cheirar, não eram bravos eu tinha medo deles, mas eles nos respeitavam, só queriam ser amigos e estar juntos da gente. Os porcos ficavam no chiqueiro, mas de vez em quando apareciam no quintal pra dar umas voltinhas. Os gatinhos eram muito engraçadinhos se esfregavam em nossas pernas, mas não podíamos estar com eles, porque éramos alérgicas ao pelo deles, minha mãe não gostava que eles ficassem perto da gente. O peru era engraçado ia de um lado ao outro muito desengonçado, ninguém queria muito papo com ele, vi um dos cães correr atrás dele, acho que não era muito compreendido pelos outros moradores, às vezes era metido abria suas asas querendo aparecer, até junto com os de sua espécie costumava discutir. Prestava muita atenção nele, ele não sabia onde ir, rodava pra lá e pra cá, gritava seu glu, glu, glu, sem parar. Quando ele estava longe me arriscava a andar pelo quintal, quando ele se aproximava corria pra cozinha.
Me deu vontade de ir ao banheiro, pedi minha mãe pra me levar, ela estava ocupada com a dona Nega, preparando uma pamonha. Então resolvi ir sozinha, me empinei pra ficar mais alta, fiz de conta que o peru não existia, cheguei até o banheiro sem nenhum problema. Na volta, fiz a mesma coisa, só que não funcionou o bicho me viu de longe e veio correndo ao meu encontro, comecei a correr e gritar, dei umas duas voltas em círculo e ele vinha atrás de mim. Dona Nega veio logo me socorrer, me pegou no colo e ameaçou o peru com um pedaço de pau, que saiu correndo sumindo no pomar.
Depois do susto, começamos a rir, na hora não teve graça, mas depois, ríamos sempre que lembrávamos do acontecido.
Há pouco tempo descobri que também existe homem peru tonto. Normalmente ele tem mais de 40 anos, chega sempre chamando atenção, te olha de cima em baixo analisando suas curvas, sem se preocupar se é comprometida ou não. Logo se expõe é sempre bem sucedido, aventureiro e se mostra ser tudo de bom, geralmente é casado e pensa ser um excelente pai, o pai legal, firme quando tem que ser firme e divertido na hora certa. O discurso deles é sempre contraditório, conseguem ir do norte, ao sul, a leste e a oeste, em um curtíssimo espaço de tempo. Eles não tem lado e se achar que você é uma pessoa interessante começa a te cortejar, ao mesmo tempo que fala da esposa e dos filhos. Quando percebo isso começo logo a pedir socorro e digo frases como: “Sangue de Cristo tem poder e misericórdia”, “Só Jesus”. E ai começo a rir por dentro. A primeira pergunta é sempre assim:
Você é protestante?
E quando digo que sou católica, pronto, é a abertura para uma enxurrada de asneiras. Sou obrigada a ouvir que todo padre é gay, que a igreja rouba, que todo fiel é fanático e um montão de outras asneiras. Quando eles percebem que não dou muita atenção, ai eles dão aula de astrologia, de modos de vida zen, alguns confessam que maconha é legal. E por aí vai! Ao final só me resta rir e ainda fico com pena desse bicho tonto. O que mais me impressiona é que eles tem esposa e filhos. Conseguem destruir seus casamentos e abandonar seus filhos à procura de uma falsa felicidade. A única coisa que sempre faço é pedir a Deus que dê um jeito neles, que lhes abra os olhos e que eles vejam que a felicidade está muito mais próxima deles, do que eles pensam. E sabe, isso não acontece somente com os homens não, também já vi mulher tonta por aí. Que pena! Quem mais sofre com isso são os filhos.
“Esse indivíduo se alimenta de cinzas, as fantasias de sua mente fazem-no perder o rumo, não consegue salvar a própria vida, é incapaz de dizer: Não será mentira o que tenho nas mãos?” (Isaías 44, 20)
.
Em um desses verões, a camionete mal estacionou, pulamos logo da carroceria, corremos todos para o quintal, direto ao pé de amora, quem era mais alto levava vantagem, eu e a Raquel estávamos sempre em desvantagem. O quintal de terra batida, abrigava vários moradores, alguns cães, gatos, galinhas, galos, pintinhos, porco..... Logo vimos um morador diferente, era um peru. Glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu.
Dona Nega veio logo avisar, cuidado com esse bicho ele não é bom da cabeça. Fiquei assustada, bonito ele não era. Era quase do meu tamanho, não gostei nada disso! Passei a andar somente ao lado de quem era maior que eu, assim me sentia mais segura mas estava sempre vigiando o peru.
Sentava na porta da cozinha que ficava virada para o quintal eu observava o movimento dos moradores daquele lugar. O galo era o primeiro a levantar e acordava a todos, todos os dias. Sempre atento punha ordem no terreiro. As galinhas eram as mais simpáticas, algumas pareciam sorrir pra mim, as que eram mães eram muito metidas, andavam empinadas com uma penca de pintinhos ao redor, não deixavam que a gente chegasse perto. De vez em quando dona Nega pegava um pintinho pra gente passar a mão e a galinha mãe ficava lá resmungando e brigando, mas logo devolvíamos. Os cães eram curiosos, queriam nos conhecer, nos cheirar, não eram bravos eu tinha medo deles, mas eles nos respeitavam, só queriam ser amigos e estar juntos da gente. Os porcos ficavam no chiqueiro, mas de vez em quando apareciam no quintal pra dar umas voltinhas. Os gatinhos eram muito engraçadinhos se esfregavam em nossas pernas, mas não podíamos estar com eles, porque éramos alérgicas ao pelo deles, minha mãe não gostava que eles ficassem perto da gente. O peru era engraçado ia de um lado ao outro muito desengonçado, ninguém queria muito papo com ele, vi um dos cães correr atrás dele, acho que não era muito compreendido pelos outros moradores, às vezes era metido abria suas asas querendo aparecer, até junto com os de sua espécie costumava discutir. Prestava muita atenção nele, ele não sabia onde ir, rodava pra lá e pra cá, gritava seu glu, glu, glu, sem parar. Quando ele estava longe me arriscava a andar pelo quintal, quando ele se aproximava corria pra cozinha.
Me deu vontade de ir ao banheiro, pedi minha mãe pra me levar, ela estava ocupada com a dona Nega, preparando uma pamonha. Então resolvi ir sozinha, me empinei pra ficar mais alta, fiz de conta que o peru não existia, cheguei até o banheiro sem nenhum problema. Na volta, fiz a mesma coisa, só que não funcionou o bicho me viu de longe e veio correndo ao meu encontro, comecei a correr e gritar, dei umas duas voltas em círculo e ele vinha atrás de mim. Dona Nega veio logo me socorrer, me pegou no colo e ameaçou o peru com um pedaço de pau, que saiu correndo sumindo no pomar.
Depois do susto, começamos a rir, na hora não teve graça, mas depois, ríamos sempre que lembrávamos do acontecido.
Há pouco tempo descobri que também existe homem peru tonto. Normalmente ele tem mais de 40 anos, chega sempre chamando atenção, te olha de cima em baixo analisando suas curvas, sem se preocupar se é comprometida ou não. Logo se expõe é sempre bem sucedido, aventureiro e se mostra ser tudo de bom, geralmente é casado e pensa ser um excelente pai, o pai legal, firme quando tem que ser firme e divertido na hora certa. O discurso deles é sempre contraditório, conseguem ir do norte, ao sul, a leste e a oeste, em um curtíssimo espaço de tempo. Eles não tem lado e se achar que você é uma pessoa interessante começa a te cortejar, ao mesmo tempo que fala da esposa e dos filhos. Quando percebo isso começo logo a pedir socorro e digo frases como: “Sangue de Cristo tem poder e misericórdia”, “Só Jesus”. E ai começo a rir por dentro. A primeira pergunta é sempre assim:
Você é protestante?
E quando digo que sou católica, pronto, é a abertura para uma enxurrada de asneiras. Sou obrigada a ouvir que todo padre é gay, que a igreja rouba, que todo fiel é fanático e um montão de outras asneiras. Quando eles percebem que não dou muita atenção, ai eles dão aula de astrologia, de modos de vida zen, alguns confessam que maconha é legal. E por aí vai! Ao final só me resta rir e ainda fico com pena desse bicho tonto. O que mais me impressiona é que eles tem esposa e filhos. Conseguem destruir seus casamentos e abandonar seus filhos à procura de uma falsa felicidade. A única coisa que sempre faço é pedir a Deus que dê um jeito neles, que lhes abra os olhos e que eles vejam que a felicidade está muito mais próxima deles, do que eles pensam. E sabe, isso não acontece somente com os homens não, também já vi mulher tonta por aí. Que pena! Quem mais sofre com isso são os filhos.
“Esse indivíduo se alimenta de cinzas, as fantasias de sua mente fazem-no perder o rumo, não consegue salvar a própria vida, é incapaz de dizer: Não será mentira o que tenho nas mãos?” (Isaías 44, 20)
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Andando pela França, de minha amiga Beatriz Lobo
Andando pela França, tropeço a todo momento em Minas Gerais. Certos detalhes na arquitetura das casas me levam à casa da minha avó. Janelas grandes de madeira que se abrem para fora e janelas de vidro que se abrem para dentro. Piso de madeira, no barulho dos meus passos me transporto para o corredor daquela casa que parecia não ter fim, ia da sala à cozinha correndo, passava por fotos antigas, cristaleira que guardava coisas que não podíamos tocar, somente ver, pássaros, papagaios, cachorros e gente muita gente, saíamos atropelando a todos, às vezes éramos barrados pelos adultos que nos pegavam para nos dar beijos e abraços ou nos olhavam com olhares que fingiam ser de reprovação. Essa era a casa da Dindinha, minha avó que não gostava de ser chamada de vó.
A Dindinha estava sempre nos esperando com uma pinha madura, colhida no quintal ou com suas deliciosas balas delícias, que muitas vezes a presenciei fazendo. Aquele cheiro, hum....... que se desprendia de um creme borbulhando em um tacho de cobre, sobre o fogão de ferro alimentado por lenha. Depois do ponto, essa massa era espalhada ainda quente, sobre um pedaço de pedra já gasta pelo tempo e pelas infinitas massas ali derramadas. Essa pedra ficava na ponta de uma mesa comprida, onde eram servidas as refeições. À medida que o creme ia esfriando ela ia juntando com as mãos, até formar um bolo de massa branca. Admirava sua força para bater aquela massa branca na pedra, e depois de todo aquele puxa e bate. Finalmente. A hora mais esperada, ela esticava a massa fazendo tiras compridas e depois com uma enorme tesoura cortava em pequenos pedaços. Nem preciso dizer que a primeira era minha, quentinha e ainda mole, mastigava como chiclete, aquele doce de coco inesquecível. Tudo faz parte de mim agora. Marcas que ela deixou em mim.
A culinária francesa me lembra muito a culinária de Minas. A forma como conservam o “confit” de pato, dentro da banha do pato, é muito parecida com a nossa carne de porco que conservamos em latas dentro da banha do porco. O “coc au vin” que é a galinha cozida no vinho tinto, me lembra a nossa galinha ao molho pardo que era nossa comida de domingo, acompanhada de angu e couve. Também cozido no vinho tinto, o “boeuf bourguignon”, me lembra muito os nossos cozidos de carne de boi com legumes. Os suflês que delícia!!!! São pratos encontrados facilmente na culinária francesa. Minha mãe fazia suflês deliciosos, de chuchu, couve flor, cenoura, batatas e até do que sobrou, ela inventava e ficavam fantásticos. Os crepes que se comem nas ruas de Paris, me lembram as panquecas que nós mesmos fazíamos para lanchar, com variados recheios. Receita aprendida com nossos vizinhos, os Padres Holandeses.
A quantidade de igrejas que existem na França não me deixa esquecer a religiosidade dos mineiros.
O que me leva à França, é o vinho. Acompanhamento perfeito para toda essa culinária maravilhosa. Bebida que comecei a apreciar em Minas Gerais. Em Minas somos incentivados a vivenciar a arte, na França tudo é arte. O estilo do povo, sua língua, sua cultura, a culinária, o vinho, a natureza harmonizada com a arquitetura da cidade, seus queijos, pães, monumentos, pontes, igrejas, museus,....... a cada passo descobrimos uma obra de arte. Agora descubro que andar pela França com os amigos e dividir tudo isso é maravilhoso. Cada vez que vou à França descubro detalhes que me conquistam ainda mais.
E um viva à França e aos Mineiros também, Uai!
A Dindinha estava sempre nos esperando com uma pinha madura, colhida no quintal ou com suas deliciosas balas delícias, que muitas vezes a presenciei fazendo. Aquele cheiro, hum....... que se desprendia de um creme borbulhando em um tacho de cobre, sobre o fogão de ferro alimentado por lenha. Depois do ponto, essa massa era espalhada ainda quente, sobre um pedaço de pedra já gasta pelo tempo e pelas infinitas massas ali derramadas. Essa pedra ficava na ponta de uma mesa comprida, onde eram servidas as refeições. À medida que o creme ia esfriando ela ia juntando com as mãos, até formar um bolo de massa branca. Admirava sua força para bater aquela massa branca na pedra, e depois de todo aquele puxa e bate. Finalmente. A hora mais esperada, ela esticava a massa fazendo tiras compridas e depois com uma enorme tesoura cortava em pequenos pedaços. Nem preciso dizer que a primeira era minha, quentinha e ainda mole, mastigava como chiclete, aquele doce de coco inesquecível. Tudo faz parte de mim agora. Marcas que ela deixou em mim.
A culinária francesa me lembra muito a culinária de Minas. A forma como conservam o “confit” de pato, dentro da banha do pato, é muito parecida com a nossa carne de porco que conservamos em latas dentro da banha do porco. O “coc au vin” que é a galinha cozida no vinho tinto, me lembra a nossa galinha ao molho pardo que era nossa comida de domingo, acompanhada de angu e couve. Também cozido no vinho tinto, o “boeuf bourguignon”, me lembra muito os nossos cozidos de carne de boi com legumes. Os suflês que delícia!!!! São pratos encontrados facilmente na culinária francesa. Minha mãe fazia suflês deliciosos, de chuchu, couve flor, cenoura, batatas e até do que sobrou, ela inventava e ficavam fantásticos. Os crepes que se comem nas ruas de Paris, me lembram as panquecas que nós mesmos fazíamos para lanchar, com variados recheios. Receita aprendida com nossos vizinhos, os Padres Holandeses.
A quantidade de igrejas que existem na França não me deixa esquecer a religiosidade dos mineiros.
O que me leva à França, é o vinho. Acompanhamento perfeito para toda essa culinária maravilhosa. Bebida que comecei a apreciar em Minas Gerais. Em Minas somos incentivados a vivenciar a arte, na França tudo é arte. O estilo do povo, sua língua, sua cultura, a culinária, o vinho, a natureza harmonizada com a arquitetura da cidade, seus queijos, pães, monumentos, pontes, igrejas, museus,....... a cada passo descobrimos uma obra de arte. Agora descubro que andar pela França com os amigos e dividir tudo isso é maravilhoso. Cada vez que vou à França descubro detalhes que me conquistam ainda mais.
E um viva à França e aos Mineiros também, Uai!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Homens Maduros, de Zélia Gatai
Há uma indisfarçável e sedutora beleza
na personalidade de muitos Homens
que hoje estão na idade madura.
É claro que toda regra tem suas exceções,
e cada idade tem o seu próprio valor.
Porém, com toda a consideração e respeito
às demais idades, destacaremos aqui
uma classe de Homens que são
companhias agradabilíssimas:
Os que hoje são quarentões,
cinquentões e sessentões.
Percebe-se com uma certa facilidade,
a sensibilidade de seus corações,
a devoção que eles tem pelo que
há de mais belo:
O sentimentalismo.
Eles são mais inteligentes, vividos,
charmosos, eloqüentes. Sabem o que falam,
e sabem falar na hora certa. São cativantes,
sabem se fazer presentes, sem incomodar.
Sabem conquistar uma boa amizade.
Em termos de relacionamentos,
trocam a quantidade pela qualidade,
visão aguçada sobre os valores da vida,
sabem tratar uma mulher com respeito e carinho. São Homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver. Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.
Homens mais amadurecidos
têm maior desenvoltura no trato
com as mulheres, sabem reconhecer
suas qualidades, são mais espirituosos,
discretos, compreensivos e mais educados.
A razão pela qual muitos Homens maduros
possuem estas qualidades maravilhosas
deve-se a vários fatores:
A opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gostos individuais, etc... Mas eu creio que em parte, há uma boa parcela
de influência nos modos de viver de uma época, filmes e músicas ouvidas e curtidas deixaram boas recordações de sua juventude. Um tempo não tão remoto,
mas que com certeza, não volta mais.
Viveram sua mocidade
(época que marca a vida de todos nós)
em um dos melhores períodos do nosso tempo: Os anos 60/70. Considerados as "décadas de ouro" da juventude, quando o romantismo foi vivido
e cantado em verso e prosa.
A saudável influência de uma época,
provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória e que mudaram a vida de muitos.
Uma época em que
o melhor da festa era dançar coladinho,
e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador,
os domingos de sol eram só alegrias.
Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Morris Albert, Jovem guarda e muitos outros que embalaram suas "Jovens tardes de domingo, quantas alegrias!
Velhos tempos, belos dias."
Foram e ainda são os Homens que mais
souberam namorar: Namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho.
Olhos nos olhos tinham mais valor...
A moda era amar ou sofrer de amor.
Muitos viveram de amor...
Outros morreram de amor...
Estes Homens maduros de hoje,
nunca foram Homens de "ficar".
Ou eles estavam namorando firme,
ou estavam na "fossa", ou estavam sozinhos. Se eles "ficassem",
ficariam para sempre...
ao trocar alianças com suas amadas.
Junto com Benito de Paula,
eles cantaram a "Mulher Brasileira, em primeiro lugar!"
A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam:
" As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil,
mais esplendor... A mão de Deus, abençoou,
Mulher que nasce aqui, tem muito mais Amor...
Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo...
Ninguém segura a juventude do Brasil...
sil... sil... sil..."
A juventude passou, mas deixou "gravado" neles, a forma mais sublime e romântica de viver. Hoje eles possuem uma "bagagem" de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos.
O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: Deixando os seus cabelos
cor-de-prata, os movimentos mais suaves,
a voz pausada, porém mais sonora.
Hoje eles são Homens que marcaram uma época.
Muitos deles hoje "dominam" com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriou os sentimentos pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavras de amor.
Nem diminuiu-lhes a grande capacidade de amar, sentir e expressar os seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia.
Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias, e sim os raros valores de suas personalidades.
O importante é perceber que
os seus corações permanecem jovens...
São homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de poder admirá-los.
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na personalidade de muitos Homens
que hoje estão na idade madura.
É claro que toda regra tem suas exceções,
e cada idade tem o seu próprio valor.
Porém, com toda a consideração e respeito
às demais idades, destacaremos aqui
uma classe de Homens que são
companhias agradabilíssimas:
Os que hoje são quarentões,
cinquentões e sessentões.
Percebe-se com uma certa facilidade,
a sensibilidade de seus corações,
a devoção que eles tem pelo que
há de mais belo:
O sentimentalismo.
Eles são mais inteligentes, vividos,
charmosos, eloqüentes. Sabem o que falam,
e sabem falar na hora certa. São cativantes,
sabem se fazer presentes, sem incomodar.
Sabem conquistar uma boa amizade.
Em termos de relacionamentos,
trocam a quantidade pela qualidade,
visão aguçada sobre os valores da vida,
sabem tratar uma mulher com respeito e carinho. São Homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver. Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.
Homens mais amadurecidos
têm maior desenvoltura no trato
com as mulheres, sabem reconhecer
suas qualidades, são mais espirituosos,
discretos, compreensivos e mais educados.
A razão pela qual muitos Homens maduros
possuem estas qualidades maravilhosas
deve-se a vários fatores:
A opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gostos individuais, etc... Mas eu creio que em parte, há uma boa parcela
de influência nos modos de viver de uma época, filmes e músicas ouvidas e curtidas deixaram boas recordações de sua juventude. Um tempo não tão remoto,
mas que com certeza, não volta mais.
Viveram sua mocidade
(época que marca a vida de todos nós)
em um dos melhores períodos do nosso tempo: Os anos 60/70. Considerados as "décadas de ouro" da juventude, quando o romantismo foi vivido
e cantado em verso e prosa.
A saudável influência de uma época,
provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória e que mudaram a vida de muitos.
Uma época em que
o melhor da festa era dançar coladinho,
e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador,
os domingos de sol eram só alegrias.
Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Morris Albert, Jovem guarda e muitos outros que embalaram suas "Jovens tardes de domingo, quantas alegrias!
Velhos tempos, belos dias."
Foram e ainda são os Homens que mais
souberam namorar: Namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho.
Olhos nos olhos tinham mais valor...
A moda era amar ou sofrer de amor.
Muitos viveram de amor...
Outros morreram de amor...
Estes Homens maduros de hoje,
nunca foram Homens de "ficar".
Ou eles estavam namorando firme,
ou estavam na "fossa", ou estavam sozinhos. Se eles "ficassem",
ficariam para sempre...
ao trocar alianças com suas amadas.
Junto com Benito de Paula,
eles cantaram a "Mulher Brasileira, em primeiro lugar!"
A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam:
" As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil,
mais esplendor... A mão de Deus, abençoou,
Mulher que nasce aqui, tem muito mais Amor...
Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo...
Ninguém segura a juventude do Brasil...
sil... sil... sil..."
A juventude passou, mas deixou "gravado" neles, a forma mais sublime e romântica de viver. Hoje eles possuem uma "bagagem" de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos.
O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: Deixando os seus cabelos
cor-de-prata, os movimentos mais suaves,
a voz pausada, porém mais sonora.
Hoje eles são Homens que marcaram uma época.
Muitos deles hoje "dominam" com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriou os sentimentos pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavras de amor.
Nem diminuiu-lhes a grande capacidade de amar, sentir e expressar os seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia.
Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias, e sim os raros valores de suas personalidades.
O importante é perceber que
os seus corações permanecem jovens...
São homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de poder admirá-los.
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Por não estarem distraídos, por Clarice Lispector
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
("Obra Completa", Ed. Rocco, 1999)
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("Obra Completa", Ed. Rocco, 1999)
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Solilóquio, de Vinicius de Moraes
Talvez os imensos limites da pátria me lembrem os puros
E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! – algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras das promessas
Mas no meu coração intranqüilo não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes.
O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos
Dize, minha alma, senão o vazio?
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado
Escravo de fruições efêmeras...
Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo
Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...
Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las
Muito ardentemente desejado...
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado.
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude
No seio do pântano triste.
Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo
Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.
Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram:
- Ele perdeu-se no mar!
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo...
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta...
Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne
Sobre o corpo macerado da vida
Ser um milhão na mesma cidade desabitada
E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia
E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.
Mas, oh, saber... – saber até o fundo do conhecimento
Sobre as aves e os lírios!
Saber a pureza bailando o pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os vôos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta...
E não sou um covarde... – sofro pelas manhãs e pelas tardes
E pelas noites desvaneço...
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... – e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...
E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes
No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio?
E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda
E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito?
O que é morrer senão viver placidamente
Na imutável espera?
Nada respondo – nada responde o desespero
Solidão sem desvario.
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança
Da imagem única.
Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido
Sobre o corpo nu da mulher
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?
Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos
Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam
E dos amigos que não se amam e não lutam
As portas abertas, à espera dos passos do retardatário
Não receberei ninguém.
Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros
E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade
Ficar, sem perseverança...
Rio de Janeiro, 1938
in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"
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E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! – algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras das promessas
Mas no meu coração intranqüilo não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes.
O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos
Dize, minha alma, senão o vazio?
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado
Escravo de fruições efêmeras...
Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo
Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...
Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las
Muito ardentemente desejado...
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado.
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude
No seio do pântano triste.
Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo
Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.
Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram:
- Ele perdeu-se no mar!
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo...
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta...
Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne
Sobre o corpo macerado da vida
Ser um milhão na mesma cidade desabitada
E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia
E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.
Mas, oh, saber... – saber até o fundo do conhecimento
Sobre as aves e os lírios!
Saber a pureza bailando o pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os vôos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta...
E não sou um covarde... – sofro pelas manhãs e pelas tardes
E pelas noites desvaneço...
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... – e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...
E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes
No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio?
E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda
E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito?
O que é morrer senão viver placidamente
Na imutável espera?
Nada respondo – nada responde o desespero
Solidão sem desvario.
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança
Da imagem única.
Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido
Sobre o corpo nu da mulher
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?
Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos
Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam
E dos amigos que não se amam e não lutam
As portas abertas, à espera dos passos do retardatário
Não receberei ninguém.
Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros
E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade
Ficar, sem perseverança...
Rio de Janeiro, 1938
in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"
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domingo, 24 de outubro de 2010
A Flor do Sonho, de Florbela Espanca
A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...
Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
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Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...
Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Pequena canção, de Cecília Meireles
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
("Vaga música", Revista da ABL, 1942)
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que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
("Vaga música", Revista da ABL, 1942)
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sábado, 16 de outubro de 2010
LOUCOS E SANTOS , de Oscar Wilde
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Eu escrevi um poema triste, de Mario Quintana
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
(em A Cor do Invisível)
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E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
(em A Cor do Invisível)
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Canção de Amor, de Rainer Maria Rilke
Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.
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para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.
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