quarta-feira, 11 de maio de 2011

Solidão é fundamental !

Solidão é fundamental !
Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia.. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Use a solidão e fique em ótima companhia

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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poesia nos textos simples, postado por Affonso Romano de Sant'ana

Como desentranhar poesia de textos aparentemente simples?

Levo para o curso COMO LER POESIA, o poema de Eduardo Alves da Costa " No caminho com Maiakovsky". O poema é longo, mas a sua parte mais conhecida, é assim:


Na primeira noite/ eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite,/ já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada. / Até que um dia,/o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz,/ e, conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos nada.

Alguém pode duvidar se este texto é poesia, pois não tem rimas. Os versos, no entanto, têm ritmo embora não tão regulares como num soneto. Mas onde a poesia?

Uma das característica da poesia é a repetição . E esse texto, tem várias, num crescendo. Mas além deste dado formal, há algo quanto ao conteúdo: o texto é uma parábola. Como os mitos, as parábolas fazem alusão, tratam indiretamente um assunto, tangem, como a poesia, o imponderável. E essa parábola, apresentada ritmicamente, deixa ao leitor o preenchimento de significados. De que se trata? De uma referência a regimes totalitários? À violência cotidiana? À invasão da privacidade na sociedade atual?

Vejamos o texto mais de perto.

-Quem são esses "eles" que surgem logo no princípio? A primeira frase é muito informativa e dramática: " Na primeira noite eles se aproximam". Há uma oposição entre "eles" e "nós" ( lugar onde está o leitor). Constrói-se uma narrativa temporal ( sintética): pois à "primeira" sucede agora a "segunda" noite de tensão. E houve um avanço dos agressores, pois eles " já não se escondem". portanto, aumentou a ameaça.

Há um crescendo trágico: evidencia-se a impotência do "eu" diante "deles". A agressividade vinda de fora é maior: "não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão". Como a dizer que na primeira noite nós não vimos claramente a ameaça, mas na segunda, vemos, somos testemunhas, "in presencia" . Não apenas "pisam", "matam" ( houve uma progressão nesses verbos), ultrapassam o jardim onde está a nossa guarda: "o cão". E como as barreiras vão caindo, aquela frase que era anteriormente separada por um ponto "E não dizemos nada", na segunda repetição é separada por uma vírgula, como se esse "e não dizemos nada" virasse um hábito, uma consequência. A violência fica sintaticamente mais evidente. Da tensão do primeiro para o segundo dia, chega-se a "um dia" não determinado, mas pateticamente esperado.

Aí, a expressão "o mais frágil deles" - aumenta a humilhação do confronto. Não é apenas o desconhecido ou violento, que mata, senão "o mais frágil deles". Não apenas o mais frágil, mas alguém que "entra sozinho", e mais- "em nossa casa". Ou seja, ele veio do exterior, esmagou a flor do jardim, matou o cão que nos protegia e está dentro da nossa casa, na nossa outrora indevassável intimidade.

Reféns e imobilizados, estamos. O mais frágil avança: "rouba-nos a luz". Vejam, ele não "apaga", não " desliga", ele "rouba" e isto é mais violento, pois não "tira" apenas, mas se "apodera" de algo que é nosso e vital- a "luz", que pode ter vários significados: vida, consciência, capacidade de localizar-se, de ser e estar.

E como se isto não bastasse, aquele que veio pelo jardim pisando flores, matando o cão, apagando a luz, agora invade nosso corpo e num gesto de progressiva violência "arranca-nos a voz da garganta". A expressão é bastante visual, é física com a presença da "garganta" violada e a sensação de pânico e dor.

E o poema termina inclementemente trágico: "E já não podemos nada".

Dito isto o leitor é abandonado em sua impotente solidão.


(Agradeço a Ronaldo Derly Rodrigues)

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Poema da Amiga, de Mário de Andrade

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.


Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.


Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.


Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.


No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.


Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.


O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...


Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...


As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

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sexta-feira, 25 de março de 2011

O Tempo, de Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

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CRIANÇA, de Silvia Plath

O olho claro é a coisa mais bonita em você.
Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,

Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino

Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas

Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.


(Tradução de Rodrigo G. Lopes e Maurício A. Mendonça)

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Reinvenção da arte, de Bertold Brecht

A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.

Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.

Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.

De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Estátua Falsa, de Mário Sá Carneiro

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...


(in "Dispersão", Paris, 5 de Maio de 1913)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Rifa-se um coração (quase novo), de Clarice Lispector

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.




(in http://www.luso-poemas.net )

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paciência, autor desconhecido.

Ah! Se vendessem paciência nas farmácias
e supermercados..
Muita gente iria gastar
boa parte do salário nessa mercadoria
tão rara hoje em dia.
Por muito pouco
a madame que parece uma "lady",
solta palavrões e berros que
lembram as antigas
"trabalhadoras do cais",
e o bem comportado executivo,
"o cavalheiro", se transforma numa
"besta selvagem" no trânsito
que ele mesmo ajuda tumultuar.
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam,
a voz da vizinha é um tormento,
o jeito do chefe é demais para sua cabeça,
a esposa virou uma chata,
o marido uma "mala sem alça",
aquela velha amiga uma "alça sem mala",
o emprego uma tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar,
até o passeio viraram novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando
que o banco dele pela Internet estava
demorando a dar o saldo,
eu me lembrei da fila dos bancos.
Pobre de nós,
meninos e meninas sem paciência,
sem tempo para a vida,
sem tempo para a espiritualidade,
a paciência está em falta no mercado,
e pelo jeito,
a paciência sintética dos calmantes
está cada vez mais em alta.
Pergunte para alguém
que você saiba que é "ansioso demais",
onde ele quer chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas,
com o vago de sua resposta.
E você? Onde quer chegar?
Está correndo tanto para que?
Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire...Acalme-se...
O mundo está apenas na sua primeira volta
e com certeza,
no final do dia vai completar
o seu giro ao redor do sol,
com ou sem a sua paciência.

"NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL...

SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA...".


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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro,minha cara tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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sábado, 18 de dezembro de 2010

Sossega Coração, de Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


(Fernando Pessoa, 2-8-1933)

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Reinvidicação da Arte, de Bertold Brecht

A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.

Mesmo se à velocidade do som
Do sou tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.

Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.

De fato, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.

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sábado, 4 de dezembro de 2010

A suposta existência, de Carlos Drummond de Andrade

Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?

Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?

Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?

Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?

Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.



(in "A paixão medida". ''Poesia completa", Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 2002, do blog do poeta Antonio Cícero: http://antoniocicero.blogspot.com)


(Enviado pelo meu amigo Ronaldo Derly Rodrigues)

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Subindo a Montanha, da minha amiga Beatriz Lobo

Quando quero te encontrar, paro tudo e me escondo em um lugar seguro, onde posso soltar meu corpo sem me preocupar. Deixo com cuidado, o meu corpo ao pé da montanha é o primeiro passo que preciso dar para te ver, preciso me desprender da matéria, de todo o peso que me impede de subir. À medida que escalo a montanha, vou deixando os pensamentos que me afligem, uso cada um para servir de apoio na minha escalada, finco-os na montanha e os uso como degraus, uso minhas tristezas, minha ansiedade, desesperança, inimigos e assim vou ficando mais leve, também deixo as pessoas que me pedem oração, minhas alegrias, meus entes queridos, meus sonhos e desejos.

Quando me sinto vazia, entrego meu olhar, meus pensamentos, meus sentidos, mergulho no silêncio ......... chego ao topo da montanha, desejosa em te ver e sentir seu amor. Vejo-O sentado em seu trono a me esperar, seus olhos se alegram ao me ver, estende sua mão, seguro firme. Seu olhar é puro, seu sorriso é infantil, sento-me aos seus pés e abro meu coração, quero levar em mim tudo o que diz e o que vejo. Tenho sede de Ti e não me canso de vir aqui, cada vez mais me vejo dependente do seu amor.

Na hora de voltar, preciso confessar que às vezes não quero voltar, mas sei que é preciso seguir e sei que ao final do caminho estará a me esperar. No alto da montanha é onde me abasteço para continuar a caminhada. Desço em um salto, visto meu corpo e vejo que nada ao meu redor mudou, às vezes as situações estão piores que quando parti, mas sinto que meu coração está fortalecido para viver o que tenho de viver. Não sei o que vai acontecer, só sei que me revisto de coragem e dou o primeiro passo e então tudo vai se transformando, portas vão se abrindo e vou caminhando confiante, seguindo a sua voz que palpita em meu coração.

E sei que sempre que precisar, estará aí no topo da montanha a me esperar.

Obrigada, Senhor!

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Homem Peru Tonto, de Beatriz Lobo

Em todos os períodos de férias escolares, desde os meus 5 anos, íamos para o sul da Bahia, onde meu pai tinha uma fazenda. Lá, ficávamos numa casinha simples feita de barro com janelinhas de madeira. Na frente, algumas flores, banquinhos de madeira, uma árvore linda. Lembro-me de ficar sentada ali em um daqueles banquinhos algumas horas, às vezes até me deitava, admirando o vento balançando a copa da árvore, a paisagem que era linda e à noite as estrelas que inundavam o nosso céu. Ali naqueles banquinhos também ouvíamos os causos de quem lá vivia. Na parte de trás da casa, ficava a cozinha com fogão a lenha, uma janela que se abria para o quintal e o pomar. A casa não tinha forro, podíamos ver as telhas. O banheiro ficava fora da casa. A casinha tinha dois quartos, ficávamos todos num quarto, meu pai, minha mãe e os cinco filhos, todos juntinhos ali. No outro quarto ficava seu Expedito e dona Nega, que lá moravam. Seu Expedito usava chapeuzinho de couro e carregava na cintura um cinto engraçado, onde pendurava, um facão, um canivete e outros apetrechos. Dona Nega, hoje causaria inveja em muita mulher por ai, era magrinha e toda musculosa e estava sempre de vestido, era muito ativa e conversadeira.
Em um desses verões, a camionete mal estacionou, pulamos logo da carroceria, corremos todos para o quintal, direto ao pé de amora, quem era mais alto levava vantagem, eu e a Raquel estávamos sempre em desvantagem. O quintal de terra batida, abrigava vários moradores, alguns cães, gatos, galinhas, galos, pintinhos, porco..... Logo vimos um morador diferente, era um peru. Glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu, glu.
Dona Nega veio logo avisar, cuidado com esse bicho ele não é bom da cabeça. Fiquei assustada, bonito ele não era. Era quase do meu tamanho, não gostei nada disso! Passei a andar somente ao lado de quem era maior que eu, assim me sentia mais segura mas estava sempre vigiando o peru.
Sentava na porta da cozinha que ficava virada para o quintal eu observava o movimento dos moradores daquele lugar. O galo era o primeiro a levantar e acordava a todos, todos os dias. Sempre atento punha ordem no terreiro. As galinhas eram as mais simpáticas, algumas pareciam sorrir pra mim, as que eram mães eram muito metidas, andavam empinadas com uma penca de pintinhos ao redor, não deixavam que a gente chegasse perto. De vez em quando dona Nega pegava um pintinho pra gente passar a mão e a galinha mãe ficava lá resmungando e brigando, mas logo devolvíamos. Os cães eram curiosos, queriam nos conhecer, nos cheirar, não eram bravos eu tinha medo deles, mas eles nos respeitavam, só queriam ser amigos e estar juntos da gente. Os porcos ficavam no chiqueiro, mas de vez em quando apareciam no quintal pra dar umas voltinhas. Os gatinhos eram muito engraçadinhos se esfregavam em nossas pernas, mas não podíamos estar com eles, porque éramos alérgicas ao pelo deles, minha mãe não gostava que eles ficassem perto da gente. O peru era engraçado ia de um lado ao outro muito desengonçado, ninguém queria muito papo com ele, vi um dos cães correr atrás dele, acho que não era muito compreendido pelos outros moradores, às vezes era metido abria suas asas querendo aparecer, até junto com os de sua espécie costumava discutir. Prestava muita atenção nele, ele não sabia onde ir, rodava pra lá e pra cá, gritava seu glu, glu, glu, sem parar. Quando ele estava longe me arriscava a andar pelo quintal, quando ele se aproximava corria pra cozinha.
Me deu vontade de ir ao banheiro, pedi minha mãe pra me levar, ela estava ocupada com a dona Nega, preparando uma pamonha. Então resolvi ir sozinha, me empinei pra ficar mais alta, fiz de conta que o peru não existia, cheguei até o banheiro sem nenhum problema. Na volta, fiz a mesma coisa, só que não funcionou o bicho me viu de longe e veio correndo ao meu encontro, comecei a correr e gritar, dei umas duas voltas em círculo e ele vinha atrás de mim. Dona Nega veio logo me socorrer, me pegou no colo e ameaçou o peru com um pedaço de pau, que saiu correndo sumindo no pomar.
Depois do susto, começamos a rir, na hora não teve graça, mas depois, ríamos sempre que lembrávamos do acontecido.
Há pouco tempo descobri que também existe homem peru tonto. Normalmente ele tem mais de 40 anos, chega sempre chamando atenção, te olha de cima em baixo analisando suas curvas, sem se preocupar se é comprometida ou não. Logo se expõe é sempre bem sucedido, aventureiro e se mostra ser tudo de bom, geralmente é casado e pensa ser um excelente pai, o pai legal, firme quando tem que ser firme e divertido na hora certa. O discurso deles é sempre contraditório, conseguem ir do norte, ao sul, a leste e a oeste, em um curtíssimo espaço de tempo. Eles não tem lado e se achar que você é uma pessoa interessante começa a te cortejar, ao mesmo tempo que fala da esposa e dos filhos. Quando percebo isso começo logo a pedir socorro e digo frases como: “Sangue de Cristo tem poder e misericórdia”, “Só Jesus”. E ai começo a rir por dentro. A primeira pergunta é sempre assim:
Você é protestante?
E quando digo que sou católica, pronto, é a abertura para uma enxurrada de asneiras. Sou obrigada a ouvir que todo padre é gay, que a igreja rouba, que todo fiel é fanático e um montão de outras asneiras. Quando eles percebem que não dou muita atenção, ai eles dão aula de astrologia, de modos de vida zen, alguns confessam que maconha é legal. E por aí vai! Ao final só me resta rir e ainda fico com pena desse bicho tonto. O que mais me impressiona é que eles tem esposa e filhos. Conseguem destruir seus casamentos e abandonar seus filhos à procura de uma falsa felicidade. A única coisa que sempre faço é pedir a Deus que dê um jeito neles, que lhes abra os olhos e que eles vejam que a felicidade está muito mais próxima deles, do que eles pensam. E sabe, isso não acontece somente com os homens não, também já vi mulher tonta por aí. Que pena! Quem mais sofre com isso são os filhos.


“Esse indivíduo se alimenta de cinzas, as fantasias de sua mente fazem-no perder o rumo, não consegue salvar a própria vida, é incapaz de dizer: Não será mentira o que tenho nas mãos?” (Isaías 44, 20)

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Andando pela França, de minha amiga Beatriz Lobo

Andando pela França, tropeço a todo momento em Minas Gerais. Certos detalhes na arquitetura das casas me levam à casa da minha avó. Janelas grandes de madeira que se abrem para fora e janelas de vidro que se abrem para dentro. Piso de madeira, no barulho dos meus passos me transporto para o corredor daquela casa que parecia não ter fim, ia da sala à cozinha correndo, passava por fotos antigas, cristaleira que guardava coisas que não podíamos tocar, somente ver, pássaros, papagaios, cachorros e gente muita gente, saíamos atropelando a todos, às vezes éramos barrados pelos adultos que nos pegavam para nos dar beijos e abraços ou nos olhavam com olhares que fingiam ser de reprovação. Essa era a casa da Dindinha, minha avó que não gostava de ser chamada de vó.
A Dindinha estava sempre nos esperando com uma pinha madura, colhida no quintal ou com suas deliciosas balas delícias, que muitas vezes a presenciei fazendo. Aquele cheiro, hum....... que se desprendia de um creme borbulhando em um tacho de cobre, sobre o fogão de ferro alimentado por lenha. Depois do ponto, essa massa era espalhada ainda quente, sobre um pedaço de pedra já gasta pelo tempo e pelas infinitas massas ali derramadas. Essa pedra ficava na ponta de uma mesa comprida, onde eram servidas as refeições. À medida que o creme ia esfriando ela ia juntando com as mãos, até formar um bolo de massa branca. Admirava sua força para bater aquela massa branca na pedra, e depois de todo aquele puxa e bate. Finalmente. A hora mais esperada, ela esticava a massa fazendo tiras compridas e depois com uma enorme tesoura cortava em pequenos pedaços. Nem preciso dizer que a primeira era minha, quentinha e ainda mole, mastigava como chiclete, aquele doce de coco inesquecível. Tudo faz parte de mim agora. Marcas que ela deixou em mim.
A culinária francesa me lembra muito a culinária de Minas. A forma como conservam o “confit” de pato, dentro da banha do pato, é muito parecida com a nossa carne de porco que conservamos em latas dentro da banha do porco. O “coc au vin” que é a galinha cozida no vinho tinto, me lembra a nossa galinha ao molho pardo que era nossa comida de domingo, acompanhada de angu e couve. Também cozido no vinho tinto, o “boeuf bourguignon”, me lembra muito os nossos cozidos de carne de boi com legumes. Os suflês que delícia!!!! São pratos encontrados facilmente na culinária francesa. Minha mãe fazia suflês deliciosos, de chuchu, couve flor, cenoura, batatas e até do que sobrou, ela inventava e ficavam fantásticos. Os crepes que se comem nas ruas de Paris, me lembram as panquecas que nós mesmos fazíamos para lanchar, com variados recheios. Receita aprendida com nossos vizinhos, os Padres Holandeses.
A quantidade de igrejas que existem na França não me deixa esquecer a religiosidade dos mineiros.
O que me leva à França, é o vinho. Acompanhamento perfeito para toda essa culinária maravilhosa. Bebida que comecei a apreciar em Minas Gerais. Em Minas somos incentivados a vivenciar a arte, na França tudo é arte. O estilo do povo, sua língua, sua cultura, a culinária, o vinho, a natureza harmonizada com a arquitetura da cidade, seus queijos, pães, monumentos, pontes, igrejas, museus,....... a cada passo descobrimos uma obra de arte. Agora descubro que andar pela França com os amigos e dividir tudo isso é maravilhoso. Cada vez que vou à França descubro detalhes que me conquistam ainda mais.
E um viva à França e aos Mineiros também, Uai!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Homens Maduros, de Zélia Gatai

Há uma indisfarçável e sedutora beleza

na personalidade de muitos Homens

que hoje estão na idade madura.

É claro que toda regra tem suas exceções,

e cada idade tem o seu próprio valor.

Porém, com toda a consideração e respeito

às demais idades, destacaremos aqui

uma classe de Homens que são

companhias agradabilíssimas:

Os que hoje são quarentões,

cinquentões e sessentões.

Percebe-se com uma certa facilidade,

a sensibilidade de seus corações,

a devoção que eles tem pelo que

há de mais belo:

O sentimentalismo.

Eles são mais inteligentes, vividos,

charmosos, eloqüentes. Sabem o que falam,

e sabem falar na hora certa. São cativantes,

sabem se fazer presentes, sem incomodar.

Sabem conquistar uma boa amizade.

Em termos de relacionamentos,

trocam a quantidade pela qualidade,

visão aguçada sobre os valores da vida,

sabem tratar uma mulher com respeito e carinho. São Homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver. Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.

Homens mais amadurecidos

têm maior desenvoltura no trato

com as mulheres, sabem reconhecer

suas qualidades, são mais espirituosos,

discretos, compreensivos e mais educados.

A razão pela qual muitos Homens maduros

possuem estas qualidades maravilhosas

deve-se a vários fatores:

A opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gostos individuais, etc... Mas eu creio que em parte, há uma boa parcela

de influência nos modos de viver de uma época, filmes e músicas ouvidas e curtidas deixaram boas recordações de sua juventude. Um tempo não tão remoto,

mas que com certeza, não volta mais.

Viveram sua mocidade

(época que marca a vida de todos nós)

em um dos melhores períodos do nosso tempo: Os anos 60/70. Considerados as "décadas de ouro" da juventude, quando o romantismo foi vivido

e cantado em verso e prosa.

A saudável influência de uma época,

provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória e que mudaram a vida de muitos.

Uma época em que

o melhor da festa era dançar coladinho,

e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador,

os domingos de sol eram só alegrias.

Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Morris Albert, Jovem guarda e muitos outros que embalaram suas "Jovens tardes de domingo, quantas alegrias!

Velhos tempos, belos dias."

Foram e ainda são os Homens que mais

souberam namorar: Namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho.

Olhos nos olhos tinham mais valor...

A moda era amar ou sofrer de amor.

Muitos viveram de amor...

Outros morreram de amor...

Estes Homens maduros de hoje,

nunca foram Homens de "ficar".

Ou eles estavam namorando firme,

ou estavam na "fossa", ou estavam sozinhos. Se eles "ficassem",

ficariam para sempre...

ao trocar alianças com suas amadas.

Junto com Benito de Paula,

eles cantaram a "Mulher Brasileira, em primeiro lugar!"

A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam:

" As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil,

mais esplendor... A mão de Deus, abençoou,

Mulher que nasce aqui, tem muito mais Amor...

Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo...

Ninguém segura a juventude do Brasil...

sil... sil... sil..."

A juventude passou, mas deixou "gravado" neles, a forma mais sublime e romântica de viver. Hoje eles possuem uma "bagagem" de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos.

O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: Deixando os seus cabelos

cor-de-prata, os movimentos mais suaves,

a voz pausada, porém mais sonora.

Hoje eles são Homens que marcaram uma época.

Muitos deles hoje "dominam" com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriou os sentimentos pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavras de amor.

Nem diminuiu-lhes a grande capacidade de amar, sentir e expressar os seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia.

Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias, e sim os raros valores de suas personalidades.

O importante é perceber que

os seus corações permanecem jovens...

São homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de poder admirá-los.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Por não estarem distraídos, por Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


("Obra Completa", Ed. Rocco, 1999)

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Solilóquio, de Vinicius de Moraes

Talvez os imensos limites da pátria me lembrem os puros
E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! – algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras das promessas
Mas no meu coração intranqüilo não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes.

O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos
Dize, minha alma, senão o vazio?
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado
Escravo de fruições efêmeras...

Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo
Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...

Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las
Muito ardentemente desejado...
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado.
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude
No seio do pântano triste.

Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo
Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.

Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram:
- Ele perdeu-se no mar!
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo...
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta...

Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne
Sobre o corpo macerado da vida
Ser um milhão na mesma cidade desabitada
E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia
E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.

Mas, oh, saber... – saber até o fundo do conhecimento
Sobre as aves e os lírios!
Saber a pureza bailando o pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os vôos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta...

E não sou um covarde... – sofro pelas manhãs e pelas tardes
E pelas noites desvaneço...
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... – e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...

E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes
No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio?

E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda
E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito?
O que é morrer senão viver placidamente
Na imutável espera?

Nada respondo – nada responde o desespero
Solidão sem desvario.
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança
Da imagem única.

Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido
Sobre o corpo nu da mulher
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?

Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos
Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam
E dos amigos que não se amam e não lutam
As portas abertas, à espera dos passos do retardatário
Não receberei ninguém.

Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros
E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade
Ficar, sem perseverança...





Rio de Janeiro, 1938

in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"


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domingo, 24 de outubro de 2010

A Flor do Sonho, de Florbela Espanca

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...


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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pequena canção, de Cecília Meireles

Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!




("Vaga música", Revista da ABL, 1942)


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sábado, 16 de outubro de 2010

LOUCOS E SANTOS , de Oscar Wilde


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Eu escrevi um poema triste, de Mario Quintana

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


(em A Cor do Invisível)

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Canção de Amor, de Rainer Maria Rilke

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.


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sábado, 2 de outubro de 2010

Convite para um chá, do sempre lembrado Paulinho Mendes Campos

Vamos tomar chá
amigo
e conversar
Falar dos desgostos
e das alegrias
Só não vale a essa altura da vida
mentir e nem dissimular
Vamos lembrar com saudades
dos tempos idos e
acenar para o amanhã
Vamos nos revelar
Deixar cair a máscara
Reencontrar a verdade facetada
Rir e passar uma borracha
naquilo que já não interessa
O que a vida nos fez?
Face da moeda
Espelho que reflete aquilo que
da vida fizemos
revelando o amor que espalhamos
as árvores que plantamos
os seres que alimentamos e
as dívidas que tivemos
a coragem de cobrar
Prazer, desgraça?
Linhas malditas e amaranhadas
Laços frouxos e muitos até puídos
o passado quer embrulhar o nosso presente
Eu digo Não
e inauguro um novo livro da vida
cheio de páginas em branco
esperando por garatujas e novos escritos
Amigo
Só tenho feito cantar
o canto foi a solução que bebi
pra curar as feridas abertas
Foi também o espaço que escolhi
para fincar as minhas raizes
taõ ressequidas e desejosas por profundidade
Não o canto escuro e sombrio
do medo e da fantasia infantil
assombrado pelo ostracismo
e pela a solidão perniciosa
O canto a que me refiro é o lírico
o da vida em expansão
Toco o intrumento da oportunidade
e suas cordas geram notas de encantamento
reverberam na alma e transbordam emoção
Rio às lágrimas!
Nesse mundo desnorteado
essa fonte marca o centro
do território da singularidade
suas águas são unguento e solução que
não se pode comprar
mas se adquire com árduo comprometimento
Somos humanos
ensinados que já nascemos pecadores
e incentivados a aceitar e
até mesmo a cultivar a dor e a melancolia
Celebremos então nossas falácias
mas que nosso foco seja a alegria
Celebremos nossos mais erros que acertos
e façamos poemas sem pontuação
Desejo que nos reencontremos
com a cara mexida pelo tempo
mais bonitos
eu acredito
Tomemos então amigo
o chá do contentamento

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Despedida, de Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


(Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág.83)

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Traduzir-se, do meu amigo Ferreira Gullar

(É hora de ler novamente, minha observação)






"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?"




("Na Vertigem do Dia", in Jornal de Poesia)


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sábado, 25 de setembro de 2010

Se eu de ti me esquecer, de Bernardo Guimarães

Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso
Possam meus tristes lábios desprender;
Para sempre abandone-me a esperança,
Se eu de ti me esquecer.



Neguem-me auras o ar, neguem-me os bosques
Sombra amiga, em que possa adormecer,
Não tenham para mim murmúrio as águas,
Se eu de ti me esquecer.



Em minhas mãos em áspide se mude
No mesmo instante a flor, que eu for colher;
Em fel a fonte, a que chegar meus lábios,
Se eu de ti me esquecer.

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sábado, 18 de setembro de 2010

Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade

(Muito adequado aos dias de hoje, com tanto rancor e radicalismos!)


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.



(in "Obra Completa", "Inéditas", Ed. Aguilar, 1964, pág.321)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A Vida é o Dever, de Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira. ...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já se passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Desta forma, eu digo: não deixe de fazer algo de que gosta devido a falta de tempo;
a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente nao voltará mais."

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Declaração de Amor, por Clarice Lispector

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostei de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.





(in "A descoberta do Mundo", Ed. Rocco, 1999.)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Eu Cantarei, de Vicente Augusto de Carvalho

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.
Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.
Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.




(O “Poeta do Mar”, nasceu em Santos (SP), em 05/04/1866, lá falecendo no dia 22/04/1924.Ocupou a Cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras.)


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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Aqui esta-se sossegado, de Fernando Pessoa

Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.
Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.
Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!
Aqui tudo é paz e mar.
Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido...
Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que veio azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.
Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.
Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.
Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois
Nada explica nem consola.


("Obra Coligida" / "Inéditas", in Obra Completa, Ed. Aguilar, 1960, pág.497)

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

John F. Kennedy, discurso de posse (e que sirva de exemplo!)

Elaborado por Ted Sorensen, seu assessor:

“Celebramos hoje não a vitória de um partido, mas a comemoração da liberdade - simbolizando um fim, assim como um começo - significando renovação assim como mudança. O mundo está muito diferente agora. O homem possui em suas mãos mortais o poder de abolir todas as formas de pobreza humana e todas as formas de abolir a vida humana.
Ao mesmo tempo, os mesmos valores revolucionários, pelos quais nossos antepassados lutaram, ainda estão em disputa por toda a terra: a crença de que os direitos humanos não provêm de uma generosidade do Estado, mas das mãos de Deus. Nós não ousamos esquecer hoje que somos os herdeiros daquela primeira revolução.
Que a mensagem se espalhe, deste tempo e lugar, para amigos e inimigos, que a tocha passou para uma nova geração de americanos - nascidos neste século, temperados pela guerra, disciplinados por uma paz dura e amarga, orgulhosos da sua herança - que não está disposta a assistir ou permitir a gradativa destruição destes direitos humanos, aos quais esta Nação foi dedicada, e em relação aos quais nós estamos comprometidos hoje, na nossa casa e no resto do mundo.
Que cada nação saiba, tanto as que nos desejam o bem, quanto as que nos desejam o mal, que nós pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer carga, enfrentaremos quaisquer sacrifícios, que apoiaremos qualquer nação amiga, nos oporemos a qualquer nação inimiga, a fim de garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade.
Com isto nos comprometemos - e mais ainda. Aqueles antigos aliados, com os quais compartilhamos as mesmas origens espirituais e culturais, nós oferecemos a garantia da lealdade de amigos fiéis. Unidos, há muito pouco que não possamos fazer numa ampla escala de empreendimentos cooperativos. Divididos, pouco poderemos fazer para enfrentar um poderoso desafio.
Aqueles novos estados, aos quais nós saudamos pelo ingresso nas fileiras das nações livres, nós oferecemos a nossa palavra em penhor de que uma forma de controle colonial não desapareceu, apenas para ser substituída por uma outra tirania. Nós não esperaremos que eles apóiem sempre nossa maneira de ver as coisas. Mas nós temos a esperança que eles sempre estarão dispostos a defender a sua liberdade.
Àquelas pessoas nos casebres e vilas por todo o globo, lutando para romper com as cadeias da miséria em massa, nós comprometemos os nossos melhores esforços para ajudá-los a se ajudarem, por qualquer tempo que seja requerido - não porque os comunistas possam estar fazendo isto, não porque estejamos em busca de seus votos, mas porque é justo. Se uma sociedade livre não pode ajudar os muitos que são pobres, ela não pode salvar os poucos que são ricos.
Às nossas repúblicas irmãs, ao sul das nossas fronteiras, nós oferecemos um compromisso especial - converter nossas boas palavras em boas ações, numa nova aliança para o progresso - afim de que possamos auxiliar homens livres e governos livres a sacudir e livrar-se das amarras da pobreza. Mas esta revolução pacífica da esperança não pode tornar-se presa de poderes hostis.
Que os nossos vizinhos saibam que nos uniremos a eles para nos opormos à agressão e à subversão em qualquer lugar nas Américas. E que qualquer outro poder saiba que este hemisfério pretende manter-se dono de sua própria casa.
Que aquela Assembléia Mundial de estados soberanos, as Nações Unidas, nossa última e melhor esperança numa era onde os instrumentos de guerra e destruição tornaram-se muito mais poderosos que os instrumentos de paz, nós renovamos o nosso compromisso de apoio, para evitar que ela se reduza a um fórum de acusações, e para reforçar o seu escudo de defesa dos novos e fracos, e expandir as áreas nas quais as suas normas sejam respeitadas.
Finalmente, para aquelas nações que decidiram tornar-se nossas adversárias, nós oferecemos não um compromisso, mas um pedido: que ambos os lados começam novamente a busca pela paz, antes que os negros poderes da destruição, desenvolvidos pela ciência engolfem toda a humanidade numa auto-destruição planejada ou acidental.
Nós não permitiremos que eles sejam tentados por nossa fraqueza. Somente quando nossas armas forem suficientes, além de qualquer dúvida, é que nós poderemos estar certos, além de qualquer dúvida que elas não serão usadas. Mas tampouco podem os dois grandes e poderosos grupos de nações sentirem qualquer conforto na sua presente condição. Ambos os lados estão sobrecarregados com os custos das armas modernas, ambos justificadamente alarmados pela rápida difusão do átomo mortal, e assim mesmo, ambos empenhados numa corrida para alterar aquele incerto equilíbrio de terror que precariamente impede a eclosão da guerra final da humanidade.
Vamos então começar mais uma vez - recordando, ambos os lados, que a civilidade não é sinal de fraqueza e a sinceridade está sempre sujeita a prova. Que nunca negociemos motivados pelo medo. Mas que nunca tenhamos medo de negociar. Que ambos os lados explorem quais os problemas que podem nos aproximar ao invés de aprofundar aqueles que podem nos separar. Que ambos os lados, pela primeira vez, formulem propostas sérias e concretas para a inspeção e controle de armas, trazendo o poder absoluto de destruir outras nações sob o controle absoluto de todas as nações.
Que ambos os lados procurem invocar as maravilhas da ciência, ao invés dos seus terrores. Juntos vamos explorar as estrelas, conquistar os desertos, erradicar doenças, pesquisar as profundezas do oceano, e encorajar as artes e o comércio. Que ambos os lados se unam para ouvir em todos os quadrantes da terra, as palavras de Isaías: "Removei as pesadas cargas... deixai os oprimidos ser livres".
Nada disso será concluído nos primeiros cem dias. Nem nos primeiros mil dias, nem mesmo durante o mandato desta administração, nem, quem sabe, durante o nosso tempo de vida neste planeta. Mas vamos começar. Nas vossas mãos, meus concidadãos, mais do que na minha, reside o sucesso ou o fracasso deste curso de ação.
Desde que este país foi fundado, cada geração de americanos foi convocada para dar testemunho de sua lealdade à nação. Os túmulos de jovens americanos que responderam ao chamado espalham-se por todo o globo.
Agora a trombeta nos convoca novamente - não uma chamada para portar armas, embora de armas precisemos; não uma chamada para a batalha, embora estejamos ainda entrincheirados - mas uma chamada para carregar o peso de uma longa e incerta luta, ano após ano, "regozijando-nos na esperança, pacientes nas tribulações"- uma luta contra os inimigos comuns da humanidade: a tirania, a pobreza, a doença e a própria guerra.
Na longa história da humanidade, somente a umas poucas gerações foi atribuído o papel de defender a liberdade nas suas horas de máximo perigo. Eu não me atemorizo com esta responsabilidade - eu a recebo de bom grado. Eu não creio que nenhum de nós aceitaria trocar de lugar com qualquer outro povo, ou com qualquer outra geração. A energia, a fé, a devoção que nós trouxermos para esta tarefa iluminará nosso país e todos os que servem a ele - e o brilho deste fogo pode verdadeiramente iluminar o mundo.
Por isso, meus irmãos americanos, não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês. Perguntem o que vocês podem fazer pelo seu país. Meus irmãos do mundo: não perguntem o que a América fará por vocês, mas o que juntos podemos fazer pela liberdade do homem”.


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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Extrato...,Sylvia Plath

"Para que serve minha vida e o que vou fazer com ela? Não sei e sinto medo. Não posso ler todos os livros que quero; não posso ser todas as pessoas que quero e viver todas as vidas que quero. E por que eu quero? Quero viver e sentir as nuances, os tons e as variações das experiências físicas e mentais possíveis de minha existência. E sou terrivelmente limitada. (…)Tenho muita vida pela frente, mas inexplicadamente sinto-me triste e fraca. No fundo, talvez se possa localizar tal sentimento em meu desagrado por ter de escolher entre alternativas. Talvez por isso queira ser todos – assim, ninguém poderá me culpar por eu ser eu. Assim, não precisarei assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento do meu caráter e de minha filosofia.
Eis a fuga pra loucura..."

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Soneto LXX, de William Shakespeare

Se te censuram, não é teu defeito,
Porque a injúria os mais belos pretende;
Da graça o ornamento é vão, suspeito,
Corvo a sujar o céu que mais esplende.
Enquanto fores bom, a injúria prova
Que tens valor, que o tempo te venera,
Pois o Verme na flor gozo renova,
E em ti irrompe a mais pura primavera.
Da infância os maus tempos pular soubeste,
Vencendo o assalto ou do assalto distante;
Mas não penses achar vantagem neste
Fado, que a inveja alarga, é incessante.
Se a ti nada demanda de suspeita,
És reino a que o coração se sujeita.

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sábado, 14 de agosto de 2010

O Romance da Moça, de Carlos Heitor Cony

Pensei que fosse coincidência. Sempre que descia à garagem, ela estava por ali, aparentemente à espera de alguém. Com o tempo, passei a cumprimentá-la.

Num dia de chuva, ofereci carona. Ela recusou. Um amigo viria buscá-la. Em sinal de gratidão, avisou-me que um dos pneus do meu carro estava baixo. Aí fui eu que agradeci.

Não sei se na mesma semana, ou na seguinte, ela entrou na minha sala. Anunciou-se à secretária de forma estranha: "É a moça da garagem." Sim, era ela, com uma pequena pasta à mostra.

Resumindo: fizera um romance. Não conhecia ninguém na área editorial ou literária. Perguntou se podia deixar os originais, não tinha pressa, queria uma opinião.

Com pequenas variantes, isso já aconteceu outras vezes e acontece com todos nós, que de alguma forma fazemos parte da tribo que se dedica a esse tipo de ofício.

Oferece-lhe um café e abri o original. Não havia indicação de autor ou autora. O título era uma charada "S.O.S". Havia uma epígrafe de São João da Cruz, falando da escura noite da alma, e uma estrofe de Bandeira: "Mas para quê/ tanto sofrimento/ se lá fora o lento/ deslizar da noite".

Elogiei as epígrafes e abri a primeira página. Começava assim: "Salve a minha alma!". Levei um susto. Como início de romance, era péssimo. Mesmo assim, senti alguma coisa de íntimo naquele grito ou naquele desespero. Fora esse o início de um romance que não cheguei a terminar.

Ia perguntar onde ela encontrara aquele original tão perdido que nunca mais me lembrara dele. Não foi preciso. Ela se identificou: "Sou filha de Martha. Você deixou este original com ela. Antes de morrer, pediu-me que o entregasse."

Naquele dia a moça aceitou a carona.


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domingo, 8 de agosto de 2010

Melancolia, de Fernando Pessoa

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
que sinto inútil e fria
dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
e o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
nenhum momento de meu
onde for que a alma emprego
na estrada morreu o cego
a nau desapareceu.


(em 03 de setembro de 1924)

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sábado, 31 de julho de 2010

As Alvarengas, de Joaquim Cardozo

"Tous les chemins vont vers la ville”
Verhaeren


As alvarengas!
Ei-las que vão e vem; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco ascende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie, flor de Zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vem de longe, dos campos saqueados.
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra.
Trazendo, nos bojos negros.
Para a cidade.
A ignota riqueza que o solo vencido abandona.
O latente rumor das florestas despedaçadas.

A cidade voragem.
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas.
As chaminés fumegam e o vento alonga.
O passo de parafuso.
E lentas.
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também, em curvas n’água propagadas.
A dor da terra, o clamor das raízes.



(Revista da ABL, 1988)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

META, de Flora Figueiredo

Dispenso o emaranhado de tristeza.
Jogo a saudade sobre a mesa,
grudo os desapontos no teto.
Passo reto, abro alas.

Arrombo portas, devasso salas,
empurro mágoas pendentes no corredor.
Recolho um favor que, desprezado,
jaz no canto, roto e desbotado,
encosto de um lado um desafeto.
Abro alas, passo reto.

Banho-me lá fora
com a gota de lua caída da aurora,
e lavo minha história.

Quando enxuta,
divisam-se glórias impolutas.
Descubro-me mulher, guerreira, artista
e bato palma.

Abro meus braços, lavo a alma;
percebo logo ali um sol nascente.
Meu passo é reto,
abro alas.
Sigo em frente.
Meta

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Desaparecimento de Luisa Porto, de Carlos Drummond de Andrade

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
À Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada ha longos anos
erma de seus cuidados.


Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva,
que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.


Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta, meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.


Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.


Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco a cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
É Rita Santana, costureira, moça desimpedida.
a qual não da noticia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.


Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898,
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra a tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem, leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.


Pela ultima vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz intima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.


Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial e do próximo.


Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
O olhar desviado e terno, canção.


A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providencias.


Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a pagina:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá :
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa ( somos pecadores )
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
— ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos•
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
gravada no centro da estrela invisível
Amor.


(in "Obra Completa" "Novos Poemas"(1946-1947),Edi. Aguilar, 1964, pag. 221)


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terça-feira, 20 de julho de 2010

Sinal fechado, de Paulinho da Viola

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você,
tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no
futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo,
quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a
pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só
ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo...
pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me
foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa,
rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...


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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um Plano Genial, de Aparício Torelly (Barão de Itararé)

Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio.

Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e idéias.

O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graças aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava.

Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho.

À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:

— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta e exclama:

— Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!

— E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.

— Está na porta — responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:

— Entra de uma vez, menino! Não vês que estes senhores te estão chamando?




(Extraído do livro “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1985, pág. 40, organização de Afonso Félix de Souza.)

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Silêncio e palavra, de Thiago de Mello

I

A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos


Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.


Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.


Muitos veríµes se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

II

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)


Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.


E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem

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sábado, 10 de julho de 2010

A floresta, de Vinicius de Moraes

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.
Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brisa.

De repente parei. Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
Que seria? De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela. Meu Deus, que majestade!
Desmontei. Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se em peitadas
Em contorsões, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertando entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de gritos interiores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita ela toda de esperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei. De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento. Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.




(Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime" )

Enviado pelo meu amigo Ronaldo Derly Rodrigues, ao ensejo dos 30 anos da partida do nosso poetinha...

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terça-feira, 6 de julho de 2010

Hora Grave, de Rainer Maria Rilke

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)


Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke (Praga, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926) foi um dos mais importantes poetas de língua alemã do século XX. Rilke fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder), 1894.

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sábado, 3 de julho de 2010

Passagem das horas, de Fernando Pessoa

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero."


(in "Quando fui outro", Ed. Objetiva, 2006, pág. 101.

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Da Imparcialidade, de Mário Quintana

A imparcialidade é uma atitude desonesta. De duas uma: ou o imparcial está mentindo, traindo acaso as suas mais legítimas preferências, ou então não passa de um exato robô, mero boneco mecânico sem opinião pessoal, sem nada de humano.
Aquela frase de Voltaire, tão citada: “Não creio numa só palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de dizer”, é uma das coisas mais demagógicas que alguém já poderia ter proferido; se achamos que algo é nocivo, meu Deus, como dormir tranquilos sem evitar sua propagação? Felizmente para Voltaire, a sua vida toda foi um desmentido a isto, e até hoje nos admiramos da sua corajosa parcialidade.

Quem começou a desmoralizar o conceito de imparcialidade, se não me engano, Pôncio Pilatos, que apenas desempenhou uma pontinha na História...Mas que pontinha! Todavia, a verdadeira imparcialidade não deve ser essa de Pilatos, tão cômoda e tão cara aos hedonistas. Mas sim a proclamação da verdade própria, ou da própria verdade, antes, acima e apesar de tudo. E como o leitor em geral adora fatos e boceja com idéias, exemplifiquemos, para terminar, com dois casos da última grande guerra.

Von Braum, quando o instaram para que apressasse, inventasse, descobrisse, o quanto antes, por motivos óbvios, um novo foguete V, ou melhor, um V3, respondeu aos chefes nazistas:”Que importa quem ganhe a guerra? Eu quero é ir à Lua!”

E, por sua vez, o prefeito de Nagasaqui, Tsume Tajawa, após o bombardeio atômico de sua cidade, declarou:”Se o Japão possuísse o mesmo tipo de arma, te-la-ia usado”.

Eis aqui duas imparcialidades: uma subjetiva, a outra objetiva, uma idealista, a outra realista.

Só resta discutir o que você teria feito se estivesse na pelo de Pôncio Pilator...


(in “Da preguiça como método de trabalho”, Editora Globo, 1994, págs. 1900191)


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sábado, 26 de junho de 2010

Solidão é fundamental !

Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia.. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Use a solidão e fique em ótima companhia

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entre o ser e as coisas, de Carlos Drummond de Andrade

“Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.

N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.”.



(in OBRA COMPLETA / POESIA /CLARO ENIGMA / NOTÍCIAS AMOROSAS, Ed. Aguilar, 1964, pag. 247)


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