terça-feira, 5 de junho de 2012

Cartas a um jovem poeta (Primeira carta), de Rainier Maria Rilke




" Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke"



(Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta",
foi traduzida por Cecília Meireles, retirados da edição :
"Cartas a um jovem poeta e Canção de Amor e morte
do porta-estandarte Cristovão Rilke", Editora Globo, 1983.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER , de Luís de Camões


Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;



É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;



É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.



Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



(Ler mais: http://www.luso-poemas.net/

domingo, 3 de junho de 2012

AS LENTAS NUVENS FAZEM SONO , de Fernando Pessoa




As lentas nuvens fazem sono,

O céu azul faz bom dormir.

Bóio, num íntimo abandono,

À tona de me não sentir.



E é suave, como um correr de água,

O sentir que não sou alguém,

Não sou capaz de peso ou mágoa.

Minha alma é aquilo que não tem.



Que bom, à margem do ribeiro

Saber que é ele que vai indo...

E só em sono eu vou primeiro.

E só em sonho eu vou seguindo.


("Poemas Inéditos" , "Obra Completa" , Ed. Aguilar, 1960 , pág. 367)





sábado, 2 de junho de 2012

SOLIDÃO , de minha querida amiga Marcia Magalhães (Poetar è Preciso)



Pois que te fere a ausência dos meus beijos


A sombra morta dos rochedos de outrora


Que sobreposta amarguras e desprezo


Do céu sem nuvens, onde imperam raios negros




O sol levanta taciturno andarilho


Por entre deuses, rocha, vento, asas de prata


Pois que o silêncio, fere, ágil, traiçoeiro


Desfolha em pétalas os nós desta mordaça!



Porém vagueis pelos caminhos do oculto


Nos labirintos onde a morte vos espreita


Buscais a chave do destino com astúcia


Devolve a taça com cicuta a quem lhe oferta!



Segue teus passos, ouve baixinho o coração


Que num murmúrio, a ti decifras o caminho


Vagueis sozinho, aprisionado à solidão


Olhai o céu! Não te abandonam as estrelas...




(Blog Poetar É Preciso , relacionado como um dos meus prediletos, junto com o Blog do Universo aqui ao lado, é mineira como o Universo e eu)


sexta-feira, 1 de junho de 2012

PASSEI TODA A NOITE , de Fernando Pessoa




Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,


E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.


Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,


E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.


Amar é pensar.


E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.


Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.


Tenho uma grande distracção animada.


Quando desejo encontrá-la


Quase que prefiro não a encontrar,


Para não ter que a deixar depois.


Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.


Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.






(”O Guardador de Rebanhos”, “Obra Completa”, Ed. Aguilar, 1960, pág. 312.)






quinta-feira, 31 de maio de 2012

QUEM SABE UM DIA , de Mario Quintana


Quem sabe um dia


Quem sabe um dia seremos


Quem sabe um dia viveremos


Quem sabe um dia morreremos!






Quem é quem


Quem é macho


Quem é fêmea


Quem é humano, apenas!






Sabe amar


Sabe de mim e de si


Sabe de nós


Sabe ser um!






Um dia


Um mês


Um ano


Um(a) vida!






Sentir primeiro, pensar depois


Perdoar primeiro, julgar depois


Amar primeiro, educar depois


Esquecer primeiro, aprender depois






Libertar primeiro, ensinar depois


Alimentar primeiro, cantar depois






Possuir primeiro, contemplar depois


Agir primeiro, julgar depois






Navegar primeiro, aportar depois


Viver primeiro, morrer depois


("A Cor do Invisível" , Ed. Globo , 1986 ,  pág. 47)





quarta-feira, 30 de maio de 2012

QUERO , de Carlos Drummond de Andrade

(A leitura do QUERO é sempre muito agradável ! Sugiro que se veja o vídeo com o Paulo Autran recitando: é fenomenal )


Quero que todos os dias do ano

todos os dias da vida

de meia em meia hora

de 5 em 5 minutos

me digas: Eu te amo.



Ouvindo-te dizer: Eu te amo,

creio, no momento, que sou amado.

No momento anterior

e no seguinte,

como sabê-lo?



Quero que me repitas até a exaustão

que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação

pois ao não dizer: Eu te amo,

desmentes

apagas

teu amor por mim.



Exijo de ti o perene comunicado.

Não exijo senão isto,

isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra

nem sei de outra maneira a não ser esta

de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:

amor na raiz da palavra

e na sua emissão,

amor

saltando da língua nacional,

amor

feito som

vibração espacial.



No momento em que não me dizes:

Eu te amo,

inexoravelmente sei

que deixaste de amar-me,

que nunca me amastes antes.



Se não me disseres urgente repetido

Eu te amoamoamoamoamo,

verdade fulminante que acabas de desentranhar,

eu me precipito no caos,

essa coleção de objetos de não-amor.





terça-feira, 29 de maio de 2012

NUM DIA (XLVII) , de Fernando Pessoa



NUM dia excessivamente nítido,

Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito

Para nele não trabalhar nada,

Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,

O que talvez seja o Grande Segredo,

Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.



Vi que não há natureza,

Que Natureza não existe,

Que há montes, vales planícies,

Que há árvores, flores , ervas,

Que há rios e pedras,

Mas que não há um todo a que isso pertença,

Que um conjunto real e verdadeiro

É uma doença das nossas idéias.



A Natureza é partes sem um todo

Isto é talvez o tal mistério de que falam.



Foi isso o que sem pensar nem parar,

Acertei que devia ser a verdade

Que todos andam a achar e que não acham,

E que só eu, porque a não fui achar , achei.






(in “Ficções do Interlúdio” , como Alberto Caeiro, “Obra Completa”, Ed. Aguilar, 1960, pág.165)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

PARA PENSAR , de Mario Quintana




Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma epoca da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos.



Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso.



Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa..



("Esconderijos do Tempo" , Ed. Globo , 1993 , pág. 54)

Pinçada do mural do facebook da minha mais que querida amiga Rossana Schettino.

domingo, 27 de maio de 2012

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA , de Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada



Lá sou amigo do rei



Lá tenho a mulher que eu quero



Na cama que escolherei







Vou-me embora pra Pasárgada



Vou-me embora pra Pasárgada



Aqui eu não sou feliz



Lá a existência é uma aventura



De tal modo inconseqüente



Que Joana a Louca de Espanha



Rainha e falsa demente



Vem a ser contraparente



Da nora que nunca tive







E como farei ginástica



Andarei de bicicleta



Montarei em burro brabo



Subirei no pau-de-sebo



Tomarei banhos de mar!



E quando estiver cansado



Deito na beira do rio



Mando chamar a mãe-d'água



Pra me contar as histórias



Que no tempo de eu menino



Rosa vinha me contar



Vou-me embora pra Pasárgada







Em Pasárgada tem tudo



É outra civilização



Tem um processo seguro



De impedir a concepção



Tem telefone automático



Tem alcalóide à vontade



Tem prostitutas bonitas



Para a gente namorar







E quando eu estiver mais triste



Mas triste de não ter jeito



Quando de noite me der



Vontade de me matar



— Lá sou amigo do rei —



Terei a mulher que eu quero



Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada.





(Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90)






sábado, 26 de maio de 2012

PRESENÇA , de Mario Quintana


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.



(Enviado pelo meu amigo Ronaldo Derly Rodrigues, a quem agradeço o privilégio da amizade!)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Não me analise , de Mário Quintana


Por favor, não me analise



Não fique procurando cada ponto fraco meu.


Se ninguém resiste a uma análise profunda,


Quanto mais eu…


Ciumento, exigente, inseguro, carente


Todo cheio de marcas que a vida deixou


Vejo em cada grito de exigência


Um pedido de carência, um pedido de amor.






Amor é síntese


É uma integração de dados


Não há que tirar nem pôr


Não me corte em fatias


Ninguém consegue abraçar um pedaço


Me envolva todo em seus braços


E eu serei o perfeito amor.













quinta-feira, 24 de maio de 2012

DORME ! EU VELO POR VOCÊ , de Fernando Pessoa


Dorme enquanto eu velo...



Deixa-me sonhar...


Nada em mim é risonho.


Quero-te para sonho,


Não para te amar.


A tua carne calma


É fria em meu querer.


Os meus desejos são cansaços.


Nem quero ter nos braços


Meu sonho do teu ser.


Dorme, dorme. dorme,


Vaga em teu sorrir...


Sonho-te tão atento


Que o sonho é encantamento


E eu sonho sem sentir.



("Ficções do Interlúdio" , "Obra Completa" , Ed. Aguilar, 1960,pág. 287)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Etapas, de Fernando Pessoa

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.


Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és...
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão





terça-feira, 22 de maio de 2012

O ESPELHO , de Silvia Plath


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, desembaçado de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.

O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, desbotada. Há tanto tempo olho para ela
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ela falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.


(Traço Freudiano - Veredas Lacanianas , objeto de um fecundo debate na Escola de Psicanálise da SPB e Oficina de Criação Literária Clarice Lispector , em nov/dez de 1981)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Vocação para a felicidade, de Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco

Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.

Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.

A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias,
em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos.

Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.

Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros,
encantos e desencantos que o amor me diz.

Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular ?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento.

Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?

Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!


É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por aí...


(in "Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1964, pág. 365

domingo, 20 de maio de 2012

QUARTO EM DESORDEM , de Carlos Drummond de Andrade



Na curva perigosa dos cinqüenta


derrapei neste amor. Que dor! que pétala


sensível e secreta me atormenta


e me provoca à síntese da flor






que não sabe como é feita: amor


na quinta-essência da palavra, e mudo


de natural silêncio já não cabe


em tanto gesto de colher e amar






a nuvem que de ambígua se dilui


nesse objeto mais vago do que nuvem


e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo






verdade tão final, sede tão vária


a esse cavalo solto pela cama


a passear o peito de quem ama.










(Tenho uma cópia manuscrita , com uma dedicatória : já prometi doar à Biblioteca Nacional !)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Maneira de Bem Sonhar , de Fernando Pessoa

Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar para amanhã.

Nem mesmo é necessário que se faça qualquer coisa, amanhã ou hoje.

Nunca penses no que vais fazer. Não o faças.

Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela.

Na verdade, e no erro, na dor e no bem estar, seja o teu próprio ser.

Só poderás fazer isso sonhando, porque a tua vida real,

a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros.

Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição.

Em todos os teus atos da vida real,

desde o de nascer até ao de morrer,

tu não ages: és agido;

tu não vives: és vivido apenas.





(Enviado pela leitora desse blog, Rachel Paschoal)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

EU NÃO SINTO A SOLIDÃO , de Gabriela Mistral

É a noite desamparo


das montanhas ao oceano.


Porém eu, a que te ama,


eu não sinto a solidão.


É todo o céu desamparo,


mergulha a lua nas ondas.


Porém eu, a que te embala,


eu não sinto a solidão.


É o mundo desamparo,


triste a carne em abandono


Porém eu, a que te embala,


eu não sinto a solidão.

.

terça-feira, 15 de maio de 2012

PENSAR NELA , de Fernando Pessoa


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.

E os pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela,

E eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.

Quero só pensar nela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.



(”O Guardador de Rebanhos”, “Obra Completa”, Ed. Aguilar, 1960, pág. 312.)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ariel, de Silvia Plath




Estancamento no escuro.
Então um azul sem substância
De penhascos e distâncias.


Leoa de Deus,
Crescemos como tal,
Pivô de calcanhares e joelhos! - O sulco


Divide e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,


Olhos negros
Sementes forjam escuros
anzois...


Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais


Arrasta-me pelo ar -
Coxas, cabelos;
Lascas de meus calcanhares.


Branca
Godiva, descasco -
Mãos mortas, necessidades mortas.


E agora eu
Espuma ao trigo, um brilho de mares.
O choro da criança


Derrete-se na parede
E eu
Sou a flexa,


Orvalho que voa,
Suicida, que se lança
Dentro do vermelho


Olho, o caldeirão da manhã.


1

Soneto XXVIII, de Shakespeare




Busco, à noite, o meu leito, exausto da labuta,

pois é justo um repouso aos membros fatigados.
Nova jornada, entanto! É meu cérebro em luta
com o pensamento vivo, e os sonhos acordados.






Romaria ou vigília?... Eu sei que não me escuta
tão longe de onde estou, por mal dos meus pecados,
aquela por quem vivo. E o coração disputa
às estrelas do céu seus olhos encantados.






Bem abertas mantendo as pálpebras dormentes,
cego, na escuridão, sinto mais que os videntes
que falta em sua face a luz do mar que é puro.






Assim, de dia ao corpo, e de noite, à minha alma,
por que hão de me roubar ao espírito a calma
que esse amor não me deu porque foi tão perjuro?




(Tradução de Gomes Filho)

AS SEM RAZÕES DO AMOR, de Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 8 de maio de 2012

VIVER É CORRER RISCOS , de Kieerkegaard


Rir é arriscar-se a parecer louco.


Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.






Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.


Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro.






Amar é arriscar-se a não ser amado.


Expor suas idéias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.






Viver é arriscar-se a morrer...


Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.






Tentar é arriscar-se a falhar.


Mas... é preciso correr riscos.






Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...


Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.






Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.


Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...






Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;


Abrem mão de sua liberdade.


Só a pessoa que se arrisca é livre...






Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.


Não se arriscar é perder a vida...













terça-feira, 1 de maio de 2012

INTERVALO , de Fernando Pessoa


Quem te disse ao ouvido esse segredo


Que raras deusas têm escutado -


Aquele amor cheio de crença e medo


Que é verdadeiro só se é segredado?...


Quem te disse tão cedo?






Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.


Não foi um outro, porque não sabia.


Mas quem roçou da testa teu cabelo


E te disse ao ouvido o que sentia?


Seria alguém, seria?






Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?


Foi só qualquer ciúme meu de ti


Que o supôs dito, porque o não direi,


Que o supôs feito, porque o só fingi


Em sonhos que nem sei?






Seja o que for, quem foi que levemente,


A teu ouvido vagamente atento,


Te falou desse amor em mim presente


Mas que não passa do meu pensamento


Que anseia e que não sente?






Foi um desejo que, sem corpo ou boca,


A teus ouvidos de eu sonhar-te disse


A frase eterna, imerecida e louca -


A que as deusas esperam da ledice


Com que o Olimpo se apouca.






(in "Ficções do Interlúdio" , "Obra Completa" , Ed. Aguilar, 1962, pág. 312)


 

domingo, 29 de abril de 2012

La Strega, de Carlos Drummond de Andrade

Ainda os poemas eróticos de Drummond ! Tenho uma cópia do "La Strega" autografada por ele em 1979 !




La Strega






Estou ficando louca de desejo


De amar e em seus braços perder-me.


Preciso, já percebo, é conter-me:


Não sobrará mais nada, agora vejo,






Se me entrego, deste modo, por inteiro


Que o coração, sendo carne, nunca mente...


Devo poupar-me, ou dar-me loucamente


Como louca que não só rasga dinheiro?






Será, pois, uma questão de grau de entrega?


Já não sei mais, não tenho a lucidez,


Perdida de paixão, como uma strega






Quero voar montada no seu falo,


Embora isso pareça insensatez,


É assim que em meu delírio devo amá-lo.














(in "Poemas Naturais" , Ed. Nova Fronteira , 1992 , pag. 43)









sábado, 28 de abril de 2012

Amar, de Carlos Drummond de Andrade

É essencial para a compreensão plena da obra de Drummond a leitura de seus poemas eróticos ! São densos , explicítos ! Belíssimos ! Leiam esse.




AMOR- pois que é palavra essencial


comece esta canção e toda a envolva.


Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,


reúna alma e desejo, membro e vulva.






Quem ousará dizer que ele é só alma?


Quem não sente no corpo a alma expandir-se


até desabrochar em puro... grito


de orgasmo, num instante de infinito?






O corpo noutro corpo entrelaçado,


fundido, dissolvido, volta à origem


dos seres, que Platão viu completados:


é um, perfeito em dois; são dois em um.






Integração na cama ou já no cosmo?


Onde termina o quarto e chega aos astros?


Que força em nossos flancos nos transporta


a essa extrema região, etérea, eterna?






Ao delicioso toque do clitóris,


já tudo se transforma, num relâmpago.


Em pequenino ponto desse corpo,


a fonte, o fogo, o mel se concentraram.






Vai a penetração rompendo nuvens


e devassando sóis tão fulgurantes


que nunca a vista humana os suportara,


mas, varado de luz, o coito segue.






E prossegue e se espraia de tal sorte


que, além de nós, além da própia vida,


como ativa abstração que se faz carne,


a idéia de gozar está gozando.






E num sofrer de gozo entre palavras,


menos que isto, sons, arquejos, ais,


um só espasmo em nós atinge o climax:


é quando o amor morre de amor, divino.






Quantas vezes morremos um no outro,


no úmido subterrâneo da vagina,


nessa morte mais suave do que o sono:


a pausa dos sentidos, satisfeita.






Então a paz se instaura. A paz dos deuses,


estendidos na cama, qual estátuas


vestidas de suor, agradecendo


o que a um deus acrescenta o amor terrestre.






(in "Poema Natural" , Ed. Nova Fronteira, 1992, pág. 45)Ver mais





terça-feira, 17 de abril de 2012

SOLIDÃO É FUNDAMENTAL

Solidão é fundamental !




Solidão é requisito para nascer e para morrer.



Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.



Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.



Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.



Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.



Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.



Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.



Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.



Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia.. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.



O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.



Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!



Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Use a solidão e fique em ótima companhia









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quinta-feira, 12 de abril de 2012

DECLARAÇÃO, Luiz Edmundo



Chega um momento em que é necessário que se leve a vida da maneira que se quiser!

Sem as convenções ridículas que as circunstâncias nos impõem.

Quando chega a hora, e é o meu caso, parece que as amarras que sempre me detiveram eram instrumentos de tortura...

Sem agradecimentos digo que já vão tarde!

A frase feita de que “só me arrependo do que não fiz” é um bom roteiro para o futuro......: errar bastante e não se arrepender jamais!

O que pode significar um, ou milhares de erros individuais em relação à dimensão da humanidade?

Nada vezes nada!!!

Então, vou em frente...



Nota: por força de honestidade , circunstancias profissionais e por questão de respeito aos direitos dos autores de textos, conscientemente, nunca deixei de noticiar o autor e dar a ele os agradecimentos pelo uso de sua obra!

O interessante é que, quando escrevo, tenho quase que a obrigação de dizer que, bom ou não, foi eu quem escreveu. É o caso, mas se é estranho, é!



sábado, 7 de abril de 2012

MENSAGEM À POESIA , de Vinicius de Moraes





Não posso


Não é possível


Digam-lhe que é totalmente impossível


Agora não pode ser


É impossível


Não posso.


Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.






Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar


Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.


Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo


E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo


A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo


Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe


Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso


reconquistar a vida


Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos


Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.


Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou


Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere


Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.


Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus


Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem


Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens


E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto


Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento


Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada


A terrível participação, e que possivelmente


Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias


Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.


Se ela não compreender, oh procurem convencê-la


Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe


Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me


Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado


Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento


Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado


Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada


Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há


Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem


Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia


Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande


Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações


Há fantasmas que me visitam de noite


E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza


No amanhã


Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite


Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso


Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora


Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde


De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável


Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale


Por um momento, que não me chame


Porque não posso ir


Não posso ir


Não posso.






Mas não a traí. Em meu coração


Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa


Envergonhá-la. A minha ausência.


É também um sortilégio


Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la


Num mundo em paz. Minha paixão de homem


Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha


Loucura resta comigo. Talvez eu deva


Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais


O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr


Livre e nua nas praias e nos céus


E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse


O meu martírio; que às vezes


Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas


Forças da tragédia abatem-se sobre mim, e me impelem para a treva


Mas que eu devo resistir, que é preciso...


Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência


Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática


Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela


Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo


A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante


A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa


Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho


A quem foi dado se perder de amor pelo direito


De todos terem um pequena casa, um jardim de frente


E uma menininha de vermelho; e se perdendo


Ser-lhe doce perder-se...


Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível


Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame


Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora


É mais forte do que eu, não posso ir


Não é possível


Me é totalmente impossível


Não pode ser não


É impossível


Não posso.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

PERGUNTO-TE, de Cecilia Meirelles



Pergunto-te onde se acha a minha vida.


Em que dia fui eu. Que hora existiu formada


... de uma verdade minha bem possuída


Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.






E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida


por esperanças hereditárias? E de cada


pergunta minha vai nascendo a sombra imensa


que envolve a posição dos olhos de quem pensa.






Já não sei mais a diferença!










("Obra Completa", Ed. Nova Fronteira, 1999)

terça-feira, 3 de abril de 2012

AUSÊNCIA , de Carlos Drummond de Andrade


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

("Fazendeiro do Ar", Ed. Aguilar, 1964 , pág. 256)."

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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Deste Modo ou Daquele Modo, de Fernando Pessoa

( como Alberto Caeiro )

Deste modo ou daquele modo.

Conforme calha ou não calha.

Podendo às vezes dizer o que penso,

E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,



Vou escrevendo os meus versos sem querer,

Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,

Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse

Como dar-me o sol de fora.



Procuro dizer o que sinto

Sem pensar em que o sinto.

Procuro encostar as palavras à idéia

E não precisar dum corredor



Do pensamento para as palavras

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.



Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.



E assim escrevo, querendo sentir a

Natureza, nem sequer como um homem,

Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.

E assim escrevo, ora bem ora mal,

Ora acertando com o que quero dizer ora errando,

Caindo aqui, levantando-me acolá,

Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.



Ainda assim, sou alguém.

Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.

Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio.



Isto sinto e isto escrevo

Perfeitamente sabedor e sem que não veja

Que são cinco horas do amanhecer

E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça

Por cima do muro do horizonte,

Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos

Agarrando o cimo do muro

Do horizonte cheio de montes baixos.

sábado, 31 de março de 2012

EU QUERO VOCÊ PARA MIM , numa fase...

Deixe que me apresente:

Sou o homem de seus sonhos,

deixe que eu entre em sua vida,

por inteiro, não resista!

Quero ser o seu hoje e seu amanhâ!

Deixe que eu te encante com meu amor!

Deixe que eu te seduza,

te envolvendo nos meus carinhos...

Deixe que eu te enlouqueça com meus beijos...

Sejas minha! Só minha!

Só então sentirás como é lindo o amor,

vivido com intensidade, numa entrega total...

Seja você como eu estou sendo:

Um homem que te ama,

que não tem medo de se entregar!

Viva este amor,

pois amar é tão divino e maravilhoso!

Venha, entremos na mágia das estrelas, da lua...

E que o luar desta noite tão linda,

seja um convite, por ti aceito,

para que nos entreguemos enfim...

Hoje, amanhã e todos os dias de nossa vida!

Vem! Eu quero você pra mim!