terça-feira, 28 de abril de 2009

Traduzir-se, de Ferreira Gullar

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?"


("Na Vertigem do Dia", in Jornal de Poesia)

(È necessário que se leia sempre o "TRADUZIR-SE" ! Minha observação.