quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SONETO XXV , de Pablo Neruda




Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza.





("Poemas avulso", Ed. Civilização Brasileira, 1974, pág. 11)


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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

FALAR COM SINCERIDADE , reflexões de Fernando Pessoa

Quando Falo com Sinceridade não sei com que Sinceridade Falo
Não sei quem sou, que alma tenho. 
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). 
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. 
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. 
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. 




( in 'Para a Explicação da Heteronímia')
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EU TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO , de Carlos Drummond de Andrade







Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não. 



("Antologia Poética", Cia. das Letras, 2009)



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domingo, 7 de outubro de 2012

QUARTO MOTIVO DA ROSA , de Cecilia Meireles




Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.




("Antologia Poética", "Mar Absoluto", Ed. Nova Fronteira, 2008)

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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

RIQUEZA ? , de Manoel de Barros



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. 

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio, 
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis, 
que vê a uva etc. etc. 


Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.








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RETRATO ARDENTE, de Eugénio de Andrade




Entre os teus lábios 
é que a loucura acode, 
desce à garganta, 
invade a água.
No teu peito 
é que o pólen do fogo 
se junta à nascente, 
alastra na sombra.
Nos teus flancos 
é que a fonte começa 
a ser rio de abelhas, 
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos 
é que a areia queima, 
o sol é secreto, 
cego o silêncio.
Deita-te comigo. 
Ilumina meus vidros. 
Entre lábios e lábios 
toda a música é minha

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A SUTILEZA DA VIDA , da minha amiga Maria José Maldonado



Minha voz não encontra eco
no que me supus.
E procuro ver-me na distância
a que ficou minha alegria.
Resquícios do sol de amor
ou substância risível do sonho?

Impossível é esse estar na vida
ouvindo os passos da morte.
É este vácuo de não ser.
Este poente a esvair-se.
Este grotesco envelhecimento
Da matéria.
Este cansaço do pensamento
em término de linha...

- A sutileza da vida
na advertência do fim-

Mas há dias ensolarados
em que a procura da nova identidade
persiste através de todos os desvios;
de todos os desânimos;
de todas as mortes da alma.
A poesia é a mensagem da esperança.
Substância essencial que me dá vida
.
 .

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EU , de Florbela Espanca





Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada ... a dolorida ...



Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!...



Sou aquela que passa e ninguém vê...

Sou a que chamam triste sem o ser...

Sou a que chora sem saber por quê...



Sou talvez a visão que alguém sonhou.

Alguém que veio ao mundo pra me ver...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A BELA ADORMECIDA, de Adélia Prado



Estou alegre e o motivo

beira secretamente à humilhação,

porque aos 50 anos (?)

não posso mais fazer curso de dança,

escolher profissão,

aprender a nadar como se deve.

No entanto, não sei se é por causa das águas,

deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,

ou se é por causa dele que volta

e põe tudo arcaico, como a matéria da alma,

se você vai ao pasto,

se você olha o céu,

aquelas frutinhas travosas,

aquela estrelinha nova,

sabe que nada mudou.

O pai está vivo e tosse,

a mãe pragueja sem raiva na cozinha.

Assim que escurecer vou namorar.

Que mundo ordenado e bom!

Namorar quem?

Minha alma nasceu desposada

com um marido invisível.

Quando ele fala roreja

quando ele vem eu sei,

porque as hastes se inclinam.

Eu fico tão atenta que adormeço

a cada ano mais.

Sob juramento lhes digo:

tenho 18 anos. Incompletos.


(Sinto falta quando deixo de ler Adélia ! Imperdoável !!!)

domingo, 30 de setembro de 2012

VIVER








  Viver é inventar o seu dia.
  É desconhecer a arrogância.
  Exalar pura energia!
  Fazer poemas de amor.
  Devolver sorrisos.
  Acreditar que o bem vence o mal.sempre.
  Enfeitar o coração com cores!
  Conquistar amigos e ser sempre leal e fiel.
  Tranformar dor em alegria.
  Ser amor de coração.
  Inspirar justiça.
  Viver é correr atrás dos sonhos, da inspiração, dos projetos.
  Buscar o entendimento das coisas.
  Ser sempre da paz.
  Orar em agradecimento das dádivas recebidas.
  Buscar o que te faz bem e aos outros também.
  Beijar na boca.
  Amar!
  Pintar o mundo com as cores que te der na telha.
  Estar sempre jovem.
  Viver é. Ser sempre verdadeiro.
  É constantemente redescobrir as coisas belas da vida
  lembrando que o sorriso é o idioma universal.
  Ouvir músicas que acalmem a alma.
  Desacelerar e aproveitar o tempo
  cada pequeno momento de prazer.
  Lembre-se: o final não existe.
  Tudo é um eterno recomeço.
  Viver é simplesmente ver a vida com o coração. 



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sábado, 29 de setembro de 2012

VONTADE DE VOCÊ !



Ah! Vontade danada! 
De estar em teus braços, 
Beijar os teus lábios, 
Sorver tua boca, 
Sentir o teu corpo, 
Ficar muito louca, 
Ser, por ti, amada! 

Ah! Vontade maluca! 
De tocar teu corpo, 
Beijar tua nuca, 
Sugar tua língua, 
Sentir teu calor, 
Da boca, o sabor, 
Fazer doce amor, 

Ah! Vontade indecente! 
Ter você noite e dia, 
Terna, doce ou vadia, 
Estar em tua mente, 
Plantar a semente 
Da mais louca paixão, 
Abraçar-te apertado, 
Ouvir sempre acelerado 
O bater do coração. 

Ah! Vontade insana! 
De amar-te no chão, 
Na relva, na grama, 
Na chuva, na cama, 
No carro, na rua, 
Ficar toda nua, 
No quarto, na sala 
E até no quintal. 
Na praia, no mar, 
Dia e noite te amar! 

Ah! Vontade sem fim! 
De levar-te à Lua, 
Levitar nas nuvens, 
Esquecer o mundo, 
Mesmo que por segundos, 
Ou horas enfim! 
De ser tua mulher, 
Ouvir que também quer 
Amar-me tanto assim! 

Ah! Vontade imensa! 
De sentir tua vibração, 
Dar toda recompensa 
A todo esse tesão! 
Sentir os corpos unidos, 
Num abraço, comprimidos! 
Sentir em ti, meu abrigo, 
O pulsar do coração, 
Respirações ofegantes, 
Corpos em êxtase, 
Delirantes! 
Nossos corpos em explosão! 


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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

VIVER...



VIVER...

Viver é inventar o seu dia, como estou fazendo agora.
É desconhecer, ou melhor, ignorar a arrogância. 
Exalar pura energia! 
Fazer poemas de amor. 
Devolver sorrisos. 
Acreditar que o bem vence o mal. Sempre. 
Enfeitar o coração com cores! 
Conquistar amigos e ser sempre leal e fiel. 

Transformar, ou tentar, dor em alegria.
Ter amor sincero.
Inspirar justiça.
Viver é correr atrás dos sonhos, da inspiração, dos projetos.
Buscar o entendimento das coisas.
Ser sempre da paz.
Agradecer o que se conquistou.
Buscar o que te faz bem e aos outros também.
Beijar na boca.
Amar!
Pintar o mundo com as cores que te der na telha.
Estar sempre jovem.
Viver é ser sempre verdadeiro.
É constantemente redescobrir as coisas belas da vida
lembrando que o sorriso é o idioma universal.
Ouvir músicas que acalmem a alma.
Desacelerar e aproveitar o tempo
cada pequeno momento de prazer.
Lembre-se: o final não existe.
SEMPRE é um eterno recomeço.
Viver é simplesmente ver a vida com prazer e alegria. 








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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O CONVITE , de Oriah Moutain Dreamer



Não me interessa o que você faz pra viver. Quero saber o que você deseja ardentemente, e se você se atreve a sonhar em encontrar os desejos do seu coração.
Não me interessa quantos anos você tem. Quero saber se você se arriscaria parecer que é um tolo por amor, por seus sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa que planetas estão em quadratura com a sua lua. Quero saber se você tocou o centro de sua própria tristeza, se você se tornou mais aberto por causa das traições da vida, ou se tornou murcho e fechado por medo das futuras mágoas.
Quero saber se você pode sentar-se com a dor, minha ou sua, sem se mexer para escondê-la, tentar diminuí-la ou tratá-la. Quero saber se você pode conviver com a alegria, minha ou sua, se você pode dançar loucamente e deixar que o êxtase tome conta de você dos pés à cabeça, sem a cautela de ser cuidadoso, de ser realista ou de lembrar das limitações de ser humano.
Não me interessa se a história que você está contando é verdadeira. Quero saber se você pode desapontar alguém para ser verdadeiro consigo mesmo; se você pode suportar acusações de traição e não trair sua própria alma. Quero saber se você pode ser leal, e portanto, confiável.
Quero saber se você pode ver a beleza mesmo quando o que vê não é bonito, todos os dias, e se você pode buscar a fonte de sua vida em sua presença. Quero saber se você pode conviver com o fracasso, seu e meu, e ainda postar-se à beira de um lago e gritar à lua cheia prateada: “Sim!”.
Não me interessa saber onde mora e quanto dinheiro você tem. Quero saber se você pode levantar depois de uma noite de tristeza e desespero, cansado e machucado até os ossos e fazer o que tem que ser feito para as crianças.
Não me interessa quem você é, como chegou até aqui. Quero saber se você vai se postar no meio do fogo comigo e não vai se encolher.
Não me interessa onde ou o que ou com quem você estudou. Quero saber o que o segura por dentro quando tudo o mais fracassa. Quero saber se você pode ficar só consigo mesmo e se você verdadeiramente gosta da companhia que tem nos momentos vazios.

(New Yorker em 13 de maio de 2009)

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MEDITE SOBRE ESSE TEXTO DO FERNANDO PESSOA !





Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

domingo, 23 de setembro de 2012

SONHO. NÃO SEI QUEM SOU , de Fernando Pessoa



Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
             Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
             Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contêm. 
Dorme insciente de alheios corações, 
             Coração de ninguém. 





( in "Cancioneiro)

sábado, 22 de setembro de 2012

O AMOR DE MINHAS VIDAS




Há tanto tempo que eu te busco nesse mundo
Como se fosse pra você ser minha,
Você é o meu sonho mais profundo
Meu coração bate junto ao seu.

Eu venho te buscando, te querendo
E um dia desses você pôde me ouvir
Minha alma feliz por estar te vendo
Desatou, e já não pára de sorrir.

Viemos de reinos distantes
Já nos conhecemos antes de nascer,
Em outras vidas nós fomos amantes
E nos encontramos porque tinha de ser

Eu e você já nos amamos de outras vidas
E mesmo não lembrando 
Acredito que houveram outras existências esquecidas
E que nelas você sempre acabou me encontrando.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

PIETÀ , de Miguel Torga





Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

(in Poesia Completa, vol. I)

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O QUINTO MOTIVO DA ROSA , de Cecilia Meireles




Antes do teu olhar, não era,
nem será depois___primavera. 
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:__o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.





("Antologia Poética", "Mar Absoluto" ,  Ed. Nova Fronteira, 2001, pág.73)



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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

DA IMPARCIALIDADE , de Mario Quintana




(Da série : textos que eu, Luiz Edmundo, gostaria de ter escrito , pois é um dos conceitos mais hipócritas que existe e é citado como uma grande virtude. Só mesmo a maestria e simplicidade do Quintana para reduzir o conceito ao que , de fato é: um engôdo)




A imparcialidade é uma atitude desonesta. De duas uma: ou o imparcial está mentindo, traindo acaso as suas mais legítimas preferências, ou então não passa de um exato robô, mero boneco mecânico sem opinião pessoal, sem nada de humano.
Aquela frase de Voltaire, tão citada: “Não creio numa só palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de dizer”, é uma das coisas mais demagógicas que alguém já poderia ter proferido; se achamos que algo é nocivo, meu Deus, como dormir tranquilo sem evitar sua propagação? Felizmente para Voltaire, a sua vida toda foi um desmentido a isto, e até hoje nos admiramos da sua corajosa parcialidade.

Quem começou a desmoralizar o conceito de imparcialidade, se não me engano, Pôncio Pilatos, que apenas desempenhou uma pontinha na História...Mas que pontinha! Todavia, a verdadeira imparcialidade não deve ser essa de Pilatos, tão cômoda e tão cara aos hedonistas. Mas sim a proclamação da verdade própria, ou da própria verdade, antes, acima e apesar de tudo. E como o leitor em geral adora fatos e boceja com idéias, exemplifiquemos, para terminar, com dois casos da última grande guerra.

Von Braum, quando o instaram para que apressasse, inventasse, descobrisse, o quanto antes, por motivos óbvios, um novo foguete V, ou melhor, um V3, respondeu aos chefes nazistas:”Que importa quem ganhe a guerra? Eu quero é ir à Lua!”

E, por sua vez, o prefeito de Nagasaqui, Tsume Tajawa, após o bombardeio atômico de sua cidade, declarou:”Se o Japão possuísse o mesmo tipo de arma, te-la-ia usado”.

Eis aqui duas imparcialidades: uma subjetiva, a outra objetiva, uma idealista, a outra realista.

Só resta discutir o que você teria feito se estivesse na pelo de Pôncio Pilatos...



(in “Da preguiça como método de trabalho”, Editora Globo, 1994, pág. 190)



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terça-feira, 18 de setembro de 2012

A CANÇÃO DESESPERADA , de Pablo Neruda

(Foi uma das preferidas do Pablito, segundo seu fraterno amigo Ênio Silveira)

Tua lembrança emerge da noite em que estou.
O rio junta ao mar seu lamento obstinado.

Abandonado como os portos na alvorada.

É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre o meu coração chovem frias corolas.

Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se acumularam as guerras e os vôos.

De ti alçaram asas os pássaros do canto.

Ah, tudo devoraste como a fria distância.

Como mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era o momento alegre do assalto e do beijo.

Era a hora do assombro que ardia como um facho.

Angústia de piloto, fúria de búzio cego,

turva embriaguez de amor, tudo em ti foi naufrágio!

Minha infância de névoa, de alma alada e ferida.

Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

Eu fiz retroceder a muralha de sombra,

e caminhei além do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amo e perdi,

a ti, nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.

Como um vaso abrigaste a infinita ternura,

e o esquecimento infindo te partiu como a um vaso.

Era a negra, era a negra soledade das ilhas,

e ali me receberam, mulher de amor, teus braços.

Era a sede, era a fome, e foste tu o fruto.

Era o luto, as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como tu pudeste conter-me

na terra de tua alma e na cruz de teus braços!

Meu desejo de ti foi o mais tenso e curto,

o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.

Cemitério de beijos, inda há fogo em tuas tumbas,

ardem ainda as uvas bicadas pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,

oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.

Oh, a cópula louca de esperança e esforço,

em que nos enlaçamos e nos desesperamos.

E a ternura leve como a água e o trigo.

E a palavra apenas começada nos lábios.

Foi esse o meu destino: nele foi meu anseio

e caiu meu anseio, tudo em ti foi naufrágio!

De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.

De pé qual um marujo sobre a proa de um barco.

Ainda floriste em cantos, rompeste correntezas.

Oh sentina de escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, fundeiro desditoso,

descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora

pela noite sujeita a todos os horários.

O cinturão ruidoso do mar aperta a costa.

Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como os portos na alvorada.

Somente a sombra trêmula se contorce em meus braços.

Ah, mais do que isso tudo. Ah, mais do que isso tudo.

É hora de partir. Oh abandonado!


("20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada", Ed. Civilização Brasileira, 1976, tradução de Domingos Carvalho da Silva)


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

MUNDO GRANDE , de Carlos Drummond de Andrade



Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

("Obra Completa", "Poética", Ed. Aguilar, 1964)

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

DESPIR UM CORPO PELA PRIMEIRA VEZ , de Affonso Romano de Sant'Ana



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mistério, de Cecília Meirelles



No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

TENHO TANTO SENTIMENTO , de Fernando Pessoa




Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguêm
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar
(in "Cancioneiro". " Obra Poética". Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

OS PODERES INFERNAIS , de Carlos Drummond de Andrade



 
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.

Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.

Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe

o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.


(in "OBRA COMPLETA", ED. AGUILAR, 1964, PAG. 321)


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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

SUGAR E SER SUGADO PELO AMOR , de Carlos Drummond de Andrade




Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante     boca milvalente
o corpo dois em um    o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
         no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.


("Amor Natural", Companhia das Letras, 1992)

AR DE NOTURNO, de Frederico Garcia Lorca





Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
( tradução:  William Agel de Melo

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A ARTE DE AMAR , de Thiago de Mello


Não faço poemas como quem chora, 
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
que quando muito moço; achava que tinha 
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.

Faço poemas como quem faz amor. 
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO , de Carlos Drummond de Andrade





Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



("OBRA COMPLETA", "ROSA DOS VENTOS", Ed. Aguilar, 1964)


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domingo, 2 de setembro de 2012

O QUE FOI , de Fernando Pesssoa



Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.



("OBRA COMPLETA", Ed. Aquilar, 1960, pág. 451)

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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

POESIA: ESTE SILÊNCIO , de Jorge Bichuetti



Nenhuma voz, nem grito;

não escuto a canção do vento.

nem ouço meu sibilante coração...

Mergulhado neste profundo silêncio,

a vida passa e nada noto,

ela voa e não vejo as nuvens;

sinto somente na pele

as marcas do tempo

e desnudo, percebo o horizonte:

o azul não precisa de palavras,

ele é... o infinito que, no silêncio,

canta... com risos e prantos,

semeando mudas e sementes

que me inunda de alegria ao ver-me,

simplesmente, ponto faíscante no espaço sem fim;

uma pequenez embriagada pelos eflúvios da imensidão.



No silêncio, eu não sou;

mas, caminho estando entre a chegda e a partida,

entre a claridade e a escuridão...

Nele, eu sou um vagalume no meio da

ciranda dos deuses, um cisco no útero sideral:

eu sou u'a flor na janela da vida,

esperando escutar a derradeira seresta.

para seguir além sendo tão-somente

o bailado da folha seca que aduba o solo,

refazendo a roda-viva da procriação...



(Blog de Jorge Bichuetti Poesia Ativa)



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