domingo, 27 de maio de 2012

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA , de Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada



Lá sou amigo do rei



Lá tenho a mulher que eu quero



Na cama que escolherei







Vou-me embora pra Pasárgada



Vou-me embora pra Pasárgada



Aqui eu não sou feliz



Lá a existência é uma aventura



De tal modo inconseqüente



Que Joana a Louca de Espanha



Rainha e falsa demente



Vem a ser contraparente



Da nora que nunca tive







E como farei ginástica



Andarei de bicicleta



Montarei em burro brabo



Subirei no pau-de-sebo



Tomarei banhos de mar!



E quando estiver cansado



Deito na beira do rio



Mando chamar a mãe-d'água



Pra me contar as histórias



Que no tempo de eu menino



Rosa vinha me contar



Vou-me embora pra Pasárgada







Em Pasárgada tem tudo



É outra civilização



Tem um processo seguro



De impedir a concepção



Tem telefone automático



Tem alcalóide à vontade



Tem prostitutas bonitas



Para a gente namorar







E quando eu estiver mais triste



Mas triste de não ter jeito



Quando de noite me der



Vontade de me matar



— Lá sou amigo do rei —



Terei a mulher que eu quero



Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada.





(Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90)