sábado, 16 de maio de 2009

Deixa que eu te ame, do meu amigo querido Hélio Pellegrino

Ah! Deixa que eu te ame! Fazei
De tua profissão de sonho a fé desesperada...
Ilumina a incursão de meus dedos calmos
Através de teu corpo infinito... Deixa que eu te ame!

Nunca esse amar assim foi meu desejo. Entanto,
O céu corre para o céu a as sombras convergem
Num ponto exasperado, onde ardem candelabros...
deixa-me ficar, como esquecido do próprio nome,

Cego, a recompor os jogos que a infância indestinou...
O verde chama o verde. A esperança de ti salta
Como a correria de crianças num pátio de colégio...
Atrás dos vidros, porém, está o tédio espreitando,

E - ai de mim! - nem mesmo a poeira cobre o meu rosto,
Pobre e lívido, entre relâmpagos que paralisam o tempo
Desesperado aguardo - deixa, deixa que eu te ame!
Enche teu corpo de azul que escorre das arvores devassadas,

Planta teu grito longe, bem longe, onde os limites se curvam!
Vendo o tempo esgotar sua provisão de cores
Dizei uma palavra que fica ao léo das invernadas que flutuam.,
Vendo o tempo esgotar sua provisao de cores,
E leve se deitar, para aguardar seu sono...

Por que o chão está encharcado? E a chuva principiando
Nas cinzas dos brasões, como uma flor que murcha?
Esquece em meu peito a mão e escuta como bate
O coração pressuroso de espadas a cimitarras em repouso...

Não crês? Não vês? Ouve meus olhos perfurados de vigília,
Esboça teu movimento, cumpliciado ao afã dos salões amigos.
E enxerga nos moveis a efígie de meu rosto soluçando,
Entre vitrais que se partem ao aceno de um porto...

Olha as grandes cidades... As chaminés se levantam,
Ao mesmo tempo que milhoes de adeuses desabrocham como fontes ...
Parto em busca de mim. Nos navios de prata.
Vejo ainda o teu perfil - Ah, deixa que eu to ame!

Meu mistério está além. E além o vento sopra
Arcado de presságio. As pedras se ajoelham,
E os lábios se partem de encontro as amuradas
Largas e calmas, a espera de ti - por entre palmas!

Deixa que eu te ame! Nada podes deter,
Senão que teu braço comanda partidas de barcos ao mar alto. . .
Larga teu corpo ao meu... Junta teus seios
Ao meu engano. . . Deixa que eu te ame, assim, em silêncio,

Vendo a luz que se apaga e não se acende mais,
Vendo a calma voltar como a ave que esmorece,
Vendo o passo na relva, coberto da silente
Paz, entre as aléas, a marginar o sonho . . .


(Antologia da Nova Poesia Brasileira ,Editora Civilização Brasileira,1948)

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