quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Andando pela França, de minha amiga Beatriz Lobo

Andando pela França, tropeço a todo momento em Minas Gerais. Certos detalhes na arquitetura das casas me levam à casa da minha avó. Janelas grandes de madeira que se abrem para fora e janelas de vidro que se abrem para dentro. Piso de madeira, no barulho dos meus passos me transporto para o corredor daquela casa que parecia não ter fim, ia da sala à cozinha correndo, passava por fotos antigas, cristaleira que guardava coisas que não podíamos tocar, somente ver, pássaros, papagaios, cachorros e gente muita gente, saíamos atropelando a todos, às vezes éramos barrados pelos adultos que nos pegavam para nos dar beijos e abraços ou nos olhavam com olhares que fingiam ser de reprovação. Essa era a casa da Dindinha, minha avó que não gostava de ser chamada de vó.
A Dindinha estava sempre nos esperando com uma pinha madura, colhida no quintal ou com suas deliciosas balas delícias, que muitas vezes a presenciei fazendo. Aquele cheiro, hum....... que se desprendia de um creme borbulhando em um tacho de cobre, sobre o fogão de ferro alimentado por lenha. Depois do ponto, essa massa era espalhada ainda quente, sobre um pedaço de pedra já gasta pelo tempo e pelas infinitas massas ali derramadas. Essa pedra ficava na ponta de uma mesa comprida, onde eram servidas as refeições. À medida que o creme ia esfriando ela ia juntando com as mãos, até formar um bolo de massa branca. Admirava sua força para bater aquela massa branca na pedra, e depois de todo aquele puxa e bate. Finalmente. A hora mais esperada, ela esticava a massa fazendo tiras compridas e depois com uma enorme tesoura cortava em pequenos pedaços. Nem preciso dizer que a primeira era minha, quentinha e ainda mole, mastigava como chiclete, aquele doce de coco inesquecível. Tudo faz parte de mim agora. Marcas que ela deixou em mim.
A culinária francesa me lembra muito a culinária de Minas. A forma como conservam o “confit” de pato, dentro da banha do pato, é muito parecida com a nossa carne de porco que conservamos em latas dentro da banha do porco. O “coc au vin” que é a galinha cozida no vinho tinto, me lembra a nossa galinha ao molho pardo que era nossa comida de domingo, acompanhada de angu e couve. Também cozido no vinho tinto, o “boeuf bourguignon”, me lembra muito os nossos cozidos de carne de boi com legumes. Os suflês que delícia!!!! São pratos encontrados facilmente na culinária francesa. Minha mãe fazia suflês deliciosos, de chuchu, couve flor, cenoura, batatas e até do que sobrou, ela inventava e ficavam fantásticos. Os crepes que se comem nas ruas de Paris, me lembram as panquecas que nós mesmos fazíamos para lanchar, com variados recheios. Receita aprendida com nossos vizinhos, os Padres Holandeses.
A quantidade de igrejas que existem na França não me deixa esquecer a religiosidade dos mineiros.
O que me leva à França, é o vinho. Acompanhamento perfeito para toda essa culinária maravilhosa. Bebida que comecei a apreciar em Minas Gerais. Em Minas somos incentivados a vivenciar a arte, na França tudo é arte. O estilo do povo, sua língua, sua cultura, a culinária, o vinho, a natureza harmonizada com a arquitetura da cidade, seus queijos, pães, monumentos, pontes, igrejas, museus,....... a cada passo descobrimos uma obra de arte. Agora descubro que andar pela França com os amigos e dividir tudo isso é maravilhoso. Cada vez que vou à França descubro detalhes que me conquistam ainda mais.
E um viva à França e aos Mineiros também, Uai!

2 comentários:

Izabel disse...

Que gostosa essa postagem, até parece um pouco de minha infancia, que saudade. E eu desse jeito quando chegar a França (devo ficar por 2 meses no proximo ano) vou assistir ao casamento de minha filha, com um Jovem Frances. E olha que eu não gostei das coisas que eles trouxeram para eu comer. Agora vou prestar mais atenção e poder apreciar quando estiver lá. Mas a comidinha mineira pra mim é D+ UAI!. Beijão

J.Universo disse...

Verdade, verdadeira. Mas. não é só na França que percebemos nossa Minas Gerais. Minas está em todo o mundo, onde se vá, haverá sempre um cheiro, uma cor, um detalhe mínimo que seja, que nos fará lembrar daqui. Se não for nada disso, com certeza você encontrará um mineiro bestando por aí, assuntando coisas. "Sou do mundo, sou de Minas Gerais..."