domingo, 24 de maio de 2009

Breve me mudo, da minha queridíssima amiga Marina Colasanti.

Estou de partida . Breve me mudarei para a curva do teu braço.
Busco a terra sem vento, a mansa terra do teu peito. E a batida surda
e quente do magma mais profundo para embalar o meu sono. Busco a
tranqüilidade da enseada.
Já conheci as águas que eu preciso saber. Fui bem além das colunas de
Hércules, e há muito descobri que, por mais longe o mar, jamais
despenco.


Desbravei os mares, lancei-me por entre espumas. Naveguei seguindo as
estrelas do céu, contando as estrelas do mar, até chegar a portos dos
quais nem suspeitava a existência.


Agora é tempo de lançar meus braços'a água, deixando que enlacem nos
rochedos ancorando - me ao meu destino.
Escolho o teu lado esquerdo , onde me beija o sol poente. E espero que
tua mão direita amaine minhas velas.


Assim, acima do teu coração, encosto a cabeça.
E pequena como um grão, deito raízes.
Aprenderei a conhecer-te através da planta dos meus pés, como o cego
sabe onde pisa, como o índio que conhece a trilha.


Se for mansa a maré das colinas, terei certeza de que dormes, ou
pensas em silêncio.Se de repente meu solo se encrespar tangido por um
vento só seu, será o frio que te toca. O medo, saberei no tremor
subterrâneo. E quando o suor correr farto enchendo rios sem peixes,
ameaçando me levar, será tempo de calor,será o verão cantando na tua
pele.


Aprenderei a tatear-te com as mãos, procurar meus caminhos nos vales
dos músculos. Fluirei devagar, dormirei nas axilas.
Não preciso de casa.
Não preciso de abrigo.
A terra de tua carne é quente, e nada me ameaça. Posso deitar-me nua,
tranqüila, ou ficar acordada olhando para o alto. O céu é calmo, as
nuvens passam indo a outros lugares. Nenhuma traz a chuva ou a
tempestade.


Não preciso de pente, não preciso de panos. O orvalho da tua pele me
banha de manhã, e a tua respiração arruma os meus cabelos.
Só quero um cavalo.
Galoparei com ele as dunas do teu corpo, descerei pelos braços,
avançarei pelas mãos, arriscando-me a queda nos penhascos dos seus
dedos.


Explorarei teu ventre, matarei minha sede no poço do teu umbigo. E
armada de desejo, penetrarei na selva de teus pêlos, emaranhada e
perfumada noite, delta dos sumos, labirinto que imperioso me chama e
suave me perde.


Só depois, percorridas as pernas, visitado os pés, voltarei corpo
acima ; ventre, peito, subindo em peregrinação até o pescoço,
repousando no vale da omoplata.
Talvez leve um cantil, para a dura escalada do teu queixo. Subirei com
cuidado, procurando a caverna das orelhas para repouso e abrigo.
Barulho não farei, prometo. Nada que te perturbe.


Talvez no dia seguinte, ou mais ainda, passando-se outro dia na
difícil subida , eu procure chegar até os teus olhos.
Se estiverem fechados , sentarei com paciência esperando o milagre da
íris descoberta, o nascer dos olhos que se renova a cada despertar, o
astro de luz surgindo sob o horizonte da pálpebra . Se estiverem
abertos, sentarei a beira deste lago, fonte, olho d'água, encantada
com a dança dos reflexos ilusórios, peixes deslizando suas sombras
sobre um fundo sem algas. E haverá um momento em que vencendo o medo,
mergulharei na transparência para nadar em direção ao redemoinho negro
da pupila.


A aresta do nariz é perigosa.
Eu bem conheço sua linha sinuosa , sua falsa maciez sobre o duro arcabouço.
Não convém que a acompanhe. Seguirei pelo lado, encostando -me as
ventas, esgueirando-me para não ser tragada. Não tentarei desvendar o
mistério do sopro.


A boca chegarei com respeito. Irei pelo canto, para descer ao lábio
inferior, o mais carnudo. Avançarei deitada, rastejando de leve na
pele úmida, até chegar a borda. E me debruçarei sobre suas palavras...

Breve me mudo para a curva do teu braço.
Não saberei mais de você do que já sei.
Nem você saberá mais de mim.
Mas talvez assim tão perto , encostada na raiz do teu ser, eu possa me
esquecer de onde começo, e me esquecer em ti na minha entrega....

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